16 de julho de 2015

Quem se vê no calçadão

No piso áspero e frio quando à sombra, e quente queimante quando ao sol, entre as lajotas, as marcas, os vincos, as raízes, as pessoas que disputam o chão. Em uma calçada, no centro de uma cidade como Santa Maria, há muito mais do que passos apressados, passos de sapatos lustrosos passando na pressa cotidiana, passos de saltos altos elegantemente parando de quando em quando na frente de vitrines. 
Se passa distraído finge que não vê, mas se ver, vê uns pezinhos descalços ou com um chinelinho velho.
Esses pezinhos sujos, pequeninhos e amarelinhos, caminhando rapidinho pelo calçadão, juntos aos olhinhos pidões de seus donos indiozinhos e indiazinhas. Mas o que mais fazem esses pezinhos é brincar, ali mesmo, com seus irmãozinhos, não importa se o chão do calçadão está todo sujo, é o que eles têm, é o que eles fazem. 
Dois, três, quatro, cinco, seis pares desses pezinhos amarelinhos e sujos brincam ao redor das cestinhas de palha, cocares, penas e macelas, no calçadão de Santa Maria. Passe e repare.

14 de julho de 2015

E vocês aí, dizendo que feminismo é palhaçada...

E vocês aí, dizendo que feminismo é palhaçada. Que mulher feminista é tudo mau comida. Feminazi, blá blá blá. Você não entende as mulheres extremistas. Você repugna a mulher que se afasta de um homem machista. Você acha palhaçada uma mulher que odeia assobios e cantadas no meio da rua.
Vai ser grande, aviso logo. Mas quem mora em Caxias ou Nova Iguaçu, principalmente mulheres, pode ser interessante ler.
Hoje eu conheci a Amanda. Infelizmente não foi de uma forma agradável nem para mim e muito menos para ela. Saindo do curso, no centro de Caxias, entro no mesmo ônibus que pego todos os dias no mesmo horário, o 115 - Caxias x Nova Iguaçu, que passa por Lote XV, Wona, Belford Roxo, Prata, Posto Treze e finalmente Nova Iguaçu. Com apenas os bancos altos do ônibus e aqueles de trás vazios, eu resolvi ficar em pé mesmo, afinal, não estava cansado e odeio aqueles bancos altos. Coloquei minha mochila no chão e dei play numa música bem alta no iPod. No banco perto de mim tinha uma menina com uma mochila que parecia estar pesada no chão do ônibus. Do lado dela, uma mulher com duas crianças com brinquedos, balões de ar e brindes - pareciam voltar de uma festa de aniversário. A mulher preferiu ir para o banco de trás, onde tinham três lugares vagos, com seus filhos afim de não incomodar a menina. Eu abaixei pra pegar minha mochila e quando ia me preparar para sentar ao lado da menina, um cara entrou na minha frente e sentou. Como era mais velho, aparentava estar voltando do trabalho e tal, eu só coloquei minha mochila no chão outra vez e aumentei mais a música. Com o passar do tempo, fui percebendo que a menina olhava com um olhar desesperado pra mim. Isso estava me incomodando. A mochila dela, agora, estava no colo dela. Eu me senti tão incomodado que acabei guardando o iPod na mochila, ouvir música não estava me agradando. A menina continuava a olhar pra mim com um olhar desesperado. Em um ponto, perto do Wona, uma das crianças estourou um dos balões na parte de trás do ônibus e todo o ônibus levou um susto, inclusive o cara que estava do lado da menina. Quando ele virou pra trás, eu pude ler os lábios da menina que diziam claramente "me ajuda". O cara logo virou pra frente. Ele não esboçava uma emoção. Não olhava para os lados, só para frente. Não se movia nem quando o ônibus balançava demais. Fiquei sem ação. Larguei minha mochila no chão mesmo e fui pra parte fronteira do ônibus, na intenção de avisar o cobrador. Mas tive medo. Tive medo de, quando o cobrador andasse em direção ao homem, ele fizesse algo com a menina. Perguntei qualquer coisa ao cobrador pra disfarçar e voltei ao meu lugar mexendo no celular, passando de uma tela inicial pra outra do iPhone como se estivesse distraído. Guardei o celular no bolso e olhei para a menina. Dei um sorriso e falei bem alto, quase gritando: "Bruna, nem percebi que era você! Você tá muito diferente!" a menina, com a voz trêmula, falou: "É, eu pintei o cabelo e emagreci um pouco. Quanto tempo, João!" Comecei a puxar assunto com ela. Assuntos fictícios e reais. Peguei minha mochila e joguei no colo dela, falando "Segura aí pra mim." O cara teve que se afastar um pouco dela. Eu podia ver agora a mão direita dele que antes eu não conseguia ver. Todo o ônibus ouviu a nossa conversa. Falamos dos pais dela, de como o Romeo - meu cachorro - estava grande, das festas muito legais que ia e de como meu curso estava indo bem e eu estava prestes a me formar. Até que uma mulher e o esposo saíram do ônibus, deixando dois lugares livres na parte fronteira do ônibus. Peguei minha mochila, coloquei nas costas e puxei a 'Bruna' pelo braço. "Vamos sentar lá na frente comigo, liberou lugar." Com todo o ônibus prestando atenção na gente, o cobrador um pouco emburrado por eu estar atrapalhando o sono dele, aquele cara não pôde fazer nada. Fomos eu e 'Bruna' pra bem longe daquele homem. Bruna não era Bruna, era Amanda. Tinha um pouco mais que a minha idade e fazia Direito em Caxias, onde conseguiu uma bolsa admirável. Morava em um lugar em Nova Iguaçu que era realmente escuro e deserto. Ela estava com muito medo. Amanda chorou baixinho, repetindo tudo que o homem cochichou no ouvido dela. Amanda, com os dedos, mostrou o lugar onde o cara colocou uma faca nela. O homem já havia contado seu plano: ele iria com ela até a rodoviária em Nova Iguaçu, onde o número de passageiros do ônibus se reduziria a menos de cinco, e desceria com ela, abraçado, fingindo ser seu namorado ou pai. Levaria ela para qualquer lugar, a estupraria e, se ela fosse boazinha, deixava ela voltar pra casa. Mas ele avisou: "eu gosto de menina quietinha, se você gritar demais eu te meto a porrada, ouviu, sua piranha?"
Amanda estava com medo de pegar o celular para ligar para alguém e não queria ir à polícia sozinha, tinha medo dos policiais - típico, mas, quem não teria? - e o homem não saía do ônibus. Tive a ideia de descer com ela no meu ponto, perto da CEDAE em Belford Roxo onde há um espaço esportivo que está sempre com homens jogando futebol e bebendo cerveja, além de ser bem próximo da Delegacia da Mulher. Desci com ela e, quando olhei pra trás, o homem estava bem atrás da gente. Ele não havia desistido. Entramos no espaço esportivo e fui me aproximando de uns homens que bebiam e escutavam pagode alto. Amanda me segurou pelo braço e disse "Não, por favor, não. Eu só quero a minha mãe." Nesse momento eu entendi a tão chamada misandria. Ela tinha medo de homens, ela estava amedrontada. Aqueles homens provavelmente ajudariam ela, mas ela estava com medo. Ficamos perto do estacionamento do espaço e emprestei meu celular pra ela ligar. O homem, a essa altura, já estava bem longe dali. Ela ligou, a mãe dela chegou e ambas choraram na minha frente. A mãe dela tremia e me abraçou muito forte, repetindo muitas vezes "obrigada, muito obrigada". Expliquei pra elas onde era a Delegacia da Mulher e as duas seguiram seu caminho.
Mas Amanda será só mais uma. Ela foi só mais uma. Ela poderia ter sido só mais uma. Só mais uma menina estuprada. Só mais uma garota violentada. Só mais uma mulher assediada. Eu, muito assustado, peguei meu segundo ônibus a caminho de casa. Fui pensando por todo o caminho em como seria a vida da Amanda a partir de agora, e como seria a vida da Amanda caso tivesse acontecido todos os planos daquele homem. Amanda teria vida depois daquele homem? Quantas Amandas existem no mundo? Quantas Amandas sofrem com isso todos os dias?
E vocês aí, dizendo que feminismo é palhaçada. Que mulher feminista é tudo mau comida. Feminazi, blá blá blá. Você não entende as mulheres extremistas. Você repugna a mulher que se afasta de um homem machista. Você acha palhaçada uma mulher que odeia assobios e cantadas no meio da rua.
Eu não conhecia a Amanda e definitivamente não queria tê-la conhecido dessa forma. Mas te digo uma coisa: se Amanda não se considerava feminista antes, agora ela se considera. Não troquei contatos com Amanda, mas quero que ela saiba, onde ela estiver, que eu sinto muito. Eu sinto muito por existirem homens assim. Eu sinto muito por existirem seres humanos assim, Amanda. E provavelmente isso vai ficar na minha mente por um bom tempo, devo ter um ou outro pesadelo. Imagina a Amanda...
Texto : Arthur Lucas Almeida

12 de julho de 2015

Ela é uma gorda bonita

Outro dia vi uma foto da Melissa McCarthy e pensei: “Que mulher lindíssima”. E logo depois eu fiquei pensando no quanto eu mudei ao longo dos últimos anos. Claro que foi uma coisa gradual. Começou quando eu passei de ser uma pessoa que não vê beleza em corpos não padronizados na minha adolescência e início da vida adulta, para alguém que pinçava beleza em algumas mulheres fora do padrão.
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Eu dizia: “A Thaís Araújo é uma negra bonita”. Sempre demarcando a raça antes do elogio, porque parecia errado dizer que a Thaís Araújo era bonita. No caso das mulheres gordas, foi muito mais difícil de enxergar a beleza. Muito mesmo. Eu não conseguia enxergar nos outros e nem em mim. Eventualmente, no dia-a-dia, eu via uma mulher gorda, mas que se enquadrava em todos os outros padrões de beleza (O corpo violão, por exemplo) e eu demarcava sua beleza, dizendo que era uma “gorda bonita”, ou pior, uma “gorda de rosto bonito”. Como se fosse errado localizar as mulheres gordas junto às mulheres magras.
Então, vieram as milhares de campanhas das “mulheres reais”. Não vou mentir, essas campanhas me ajudaram, sim. Entretanto, apenas até certo ponto. Começaram a flexibilizar um pouco os conceitos tradicionais, racistas e gordofóbicos de beleza, mas não o suficiente. Somente o feminismo, e o contato com as mulheres negras e a pequena visibilidade que as mulheres gordas começam a esboçar na mídia mudaram o que eu sentia em relação às mulheres gordas.
De repente, eu comecei a ler o que as mulheres negras diziam a respeito da expressão “uma negra bonita” e não tem como não relacionar com a questão da mulher gorda (veja, eu não quero comparar opressões, somente observar que temos similaridades quando o assunto é beleza não-normativa).
Nenhuma mulher gorda é tratada como uma mulher bonita se colocada junto a um grupo de mulheres magras, por isso temos o hábito de demarcar, esta mulher é bonita dentro do grupo de mulheres gordas. Me desculpe o Vinícius, mas eu não quero que beleza seja fundamental, pois não quero que nenhuma mulher seja obrigada a ser bonita, mas também não quero ver as mulheres negras, gordas, com deficiência como uma subcategoria de beleza. Como se existissem as mulheres verdadeiramente bonitas e as outras, que são meras simulações de beleza.
O exercício de não repetir a expressão “uma negra bonita” me fez confrontar o meu racismo velado à partir da linguagem. É claro que a gente se pergunta se é efetivo, afinal o que nasceu primeiro o preconceito ou a linguagem? Será suficiente mudar a forma como você se expressa? Será que isso vai mudar também como você pensa?
Existe uma expressão em inglês que pode ser citada aqui “Fake it, until you make it”, em tradução livre, finja até que se torne realidade. Se você não consegue deixar de pensar “é uma gorda bonita”, racionalize e diga “é uma mulher bonita”. Porque deixar de ser preconceituoso é um esforço contínuo de racionalidade e empatia. Atacar a linguagem é uma estratégia prática: começar a tratar a doença pelo sintoma, às vezes é o suficiente para alcançar a cura, às vezes não. Contudo, neste momento, o tratamento dos sintomas é urgente.
Quando se trata de gordofobia, estou tentando retirar do meu vocabulário também expressões como “gordice” e “cabeça de gordo”. Acredite em mim, não é fácil. De vez em quando as palavras já saíram e eu não posso mais recolhê-las e guardá-las novamente antes que alguém escute. Mas em relação á frase “uma gorda bonita”, eu percebi que venci a batalha quando vi uma foto da Melissa McCarthy e só consegui pensar: “Que mulher lindíssima” e não “que gorda bonita”. E não apenas isso, mas o fato de eu admirar sua beleza da mesma maneira que fazia, lá na adolescência com as mulheres magras.
As palavras atingem as pessoas com uma força enorme, mesmo um suposto elogio como “você tem um ROSTO lindo” pode gerar um efeito desabonador, afinal, somente o rosto de uma pessoa gorda é considerado bonito. Então a ausência de palavras ofensivas e pretensamente elogiosas (sem ser de fato) causa uma mudança real. Uma mudança que pode ser vista tanto em quem deixa de proferir, quanto em quem costuma ser vítima das palavras ofensivas.
REFERÊNCIA: Lugar de Mulher

8 de julho de 2015


5 de julho de 2015

“Tomo muito enquadro na rua só porque sou negro”

 e  — 03/07/15
Jovem que foi preso injustamente pela PM e internado por quase 30 dias na Fundação Casa acha que redução da maioridade penal “não vai resolver nada”
“Na semana, eu tomo praticamente um enquadro por dia”, afirma João Ricardo Gouveia Bernardes. Numa das vezes que foi abordado por policiais militares, o jovem negro, de 19 anos, relata que estava com um colega branco, a quem a polícia perguntou:“Esse neguinho está roubando você”? Quando sai com amigos brancos, João costuma ser o primeiro e às vezes o único abordado,  e a quem perguntam se o celular e o dinheiro que carrega são seus, relata.
A abordagem policial mais traumática a qual foi submetido em sua vida completou um ano em março deste ano. Na madrugada de 17 de março de 2014, João Ricardo foi retirado de sua casa por policiais militares sob a acusação de cometer um assalto a mão armada. Uma das vítimas afirmou que ele teria sido um dos autores do delito, testemunho desmentido posteriormente.
Mesmo depois de provar sua inocência, o jovem, à época com 17 anos, foi levado para a Fundação Casa, onde ficou internado por quase um mês. “A única prova que teria contra mim seria o testemunho da vítima, que inicialmente me reconheceu, mas depois retirou a queixa. O juiz não quis ver o depoimento e nem o vídeo que mostra tudo que aconteceu e que provam a minha inocência. A hora do delito, a hora que os policiais entram em casa, o carro batendo. O juiz cruzou os braços e me deu internação”.
Cor da pele
“Por que o juiz não quis olhar as provas?”, questiona o rapaz. “Acho que ele não cumpriu com o dever dele de ser justo e olhar as provas. Deu no que deu. Eu tinha 17 anos”. Para o adolescente, a cor da pele, mais uma vez interferiu na conduta. O outro rapaz que estava na frente do prédio na hora do assalto, era branco e foi liberado. “Vejo isso como preconceito”.
Na manhã do dia 21 de maio, os jornalistas André Caramante e Bruno Paes Manso, da Ponte Jornalismo, publicaram uma reportagemsobre o caso e apontando os “dez erros que tiraram a liberdade de um inocente”, no blog “SP no Divã”. No período da tarde do mesmo dia, João Ricardo, que teve apoio de coletivos e movimentos contra prisões, foi solto.
Lenta e cega
O desespero que a mãe Valmira Duarte Gouveia passou durante os dias que ficou longe de seu filho ainda é presente. “É com se tivesse acontecido agora há pouco. Foi muito doloroso”.
Para ela, “hoje em dia, se você tem uma corzinha mais escura, é culpado de qualquer coisa”. A mãe de João Ricardo acredita que a culpa do que ocorreu com o filho é da Justiça, “que além de lenta é cega, não vê o que faz. Mesmo com as provas, a pessoa não querer olhar e ainda falar: ‘para mim ele parece suspeito, então manda prender. Isso não é justiça”.
Como um preso
Durante o período em que esteve internado, o rapaz se sentia “como um preso. Você não tem liberdade, não pode fazer nada. Está excluído da população, da sociedade como um todo”. Ele acredita que a redução da maioridade penal “não vai resolver nada. Cada vez vai ter mais criança no crime. O problema não é a maioridade. O que vai mudar é melhorar a educação, o ambiente e não falar que a criança tem que ser presa porque roubou comida”. Sua mãe concorda: “vai funcionar só para pobre e preto, principalmente se for preto”.

4 de julho de 2015

ALICE NO PAÍS DAS MARAVILHAS VAI COMPLETAR 150 ANOS - E AINDA NÃO ENTENDEMOS TODOS SEUS MISTÉRIOS


  (Foto: Wikimedia Commons)
Alice vai fazer 150 anos este ano - e ainda amamos ler sobre (ou assistir) as curiosas aventuras da garotinha no País das Maravilhas. Alguma coisa nesse livro o tornou um clássico atemporal, uma história fascinante que alcançou um público muito maior do que as crianças do século 19.
Parte do motivo é que "Alice no País das Maravilhas" foi um ponto de virada na literatura infantil. Livros mais antigos e outras histórias para crianças tinham um foco na educação moral. A maioria dos livros estava lá para te ensinar como ser um bom garotinho ou uma boa garotinha, em vez de entreter e provocar a imaginação. Mas Lewis Carroll mudou tudo isso. 
Alice sabe mais
Em vez de instruir a criança, Carroll centrou a sua narrativa em uma garotinha que dava broncas em adultos, em um mundo no qual tudo é confuso. Alice dá conselhos de boas maneiras e reprime os habitantes do País das Maravilhas por serem indelicados e loucos. Ela entende que adultos não são confiáveis, são ilógicos e, de certa forma, insanos. É uma reversão completa da maneira com que adultos e crianças eram retratados na literatura. 
O resultado é hilário: o humor irreverente do livro apela para a natureza anarquista da criança. Por exemplo, um verso bem conhecido e respeitado daquela época ganha uma paródia do chapeleiro louco. Ele recita: "Brilha, brilha morceguinho/ Brilha bem devagarinho / Desce, desce vem pousar cá/ No bule do meu chá" - alguém lembrou de 'brilha brilha estrelinha'? Como resposta, Alice acaba entregando uma versão cômica do poema 'The Old Man’s Comforts and How He Gained Them', de Robert Southe.
A história de Carroll faz piada com o sistema de educação vitoriano. Alice usa longas palavras que ela não compreende porque elas parecem importantes. Na escola, a Falsa Tartaruga diz que aprendeu 'diferentes galhos da aritmética' e 'ambição, distração, enfeiamento e escárnio'. Brincadeiras com palavras, humor, paródias e reversão de papéis são os ingredientes de livros infantis hoje graças à Carroll.
A interpretação dos mistérios
O motivo pelo sucesso de Alice em várias partes do mundo é mais complexo, mas pode estar relacionado a percepções sobre a essência britânica do livro. O País das Maravilhas tem uma rainha, festas e chás, jogos de croquê e empregados domésticos. A visão nostálgica de uma sociedade vitoriana idealizada faz parte dessa atração. São os mesmos ingredientes que tornaram Downton Abbey e Harry Potter tão famosos. 
Mas, de forma mais intrigante, exista uma sugestão de que o livro tem seu lado obscuro. Foi sugerido, com frequência, que as comidas mágicas que Alice consome são uma alusão às drogas. Ela come cogumelos mágicos, afinal, enquanto conversa com uma lagarta que fuma. É uma intepretação da cultura pop, baseada na forma com que as sequências dos livros foram analisadas por gerações mais novas - notavelmente a cultura hippie dos anos 60 e 70. Mas é uma ideia popular ainda hoje, como é demonstrado pelas cenas de abertura de "Matrix"
uma má influência? (Foto: wikimedia commons)
Talvez ainda mais preocupantes sejam as dúvidas sobre o interesse de Lewis Carroll em Alice Liddell, a garotinha na qual a história foi inspirada e para quem ela foi originalmente escrita. Lewis gostava de fotografar menininhas o que, hoje, pode parecer bastente suspeito. E apesar de pesquisas recentes terem provado que essas suspeitas não fazem muito sentido, os rumores continuam voltando.
Sempre um enigma?
Cada vez mais leitores exploram o texto, em busca de significados ocultos. Em uma interpretação, a história baseada em um sonho é uma metáfora para uma jornada interior, em direção às vontades incontroladas do subconsciente. Afinal, a Alice ameaça comer vários personagens do País das Maravilhas, talvez refletindo o estágio oral de Freud de desenvolvimento psicosexual. Vários personagens perguntam a ela 'quem é você' - e nem sempre ela responde de uma forma clara.
Talvez seja uma alegoria a como é difícil o processo de crescimento, representado pelo despertar literal de Alice no fim da história. A busca por um significado mais profundo tornou a história mais cativante do que todos os aparentes encontros nosense da garotinha.
Por fim, Alice no País das Maravilhas é um exemplo maravilhoso de 'texto aberto' - um texto que pode significar o que você quer que ele signifique, dependendo de sua perspectiva. Ele se transformou em folclore, em um meme que adoramos reproduzir. Contos de fadas sobrevivem porque são versáteis: eles podem significar coisas diferentes em contextos diferentes. Alice no País das Maravilhas se transformou em um conto de fadas moderno e, sem dúvida, continuará a ser transformado e adaptado nos próximos anos. 
E, enquanto desejamos um feliz aniversário de 150 anos para a Alice, vale a pena lembrar que é uma história escrita por um matemático. Carroll iria adorar saber que seu livro continua sendo um enigma que muita gente tenta resolver. 
*Dimitra Fimi é professora de inglês na Cardiff Metropolitan University
Esse texto foi publicado primeiramente no The Conversation. Leia o original aqui.