28 de novembro de 2015

1 ano do meu TCC sobre a APAC

Hoje, 28 de Novembro, fecha um ano da minha apresentação do TCC da graduação em Direito.
Encontrei meu tema ainda em 2011 e, desde então venho acompanhando até hoje o trabalho maravilhoso que inspirou minha monografia em 2014.
A APAC - Associação de Proteção e Assistência aos Condenados.
É um método de ressocialização de presos e também um presídio distinto do sistema penitenciário convencional.
Para comemorar este 1 ano eu quis trazer um depoimento emocionante de um dos detentos (recuperandos, como são chamados na APAC), escrito numa oficina de redação ministrada por uma voluntária mestra em letras.
O texto é longo, mas garanto, é o mais tocante dos que anexei no meu TCC. 

Vou procurar agora postar um por ano, quem sabe mais.
Por que?
Porque essas pessoas precisam ser vistas, precisam de atenção. O Brasil é o 3º maior em população carcerária do mundo, é um problema mundial e gritante, chegou a hora (faz tempo) de ouvi-los:

Segue o depoimento de Roberto Donizete de Carvalho, na íntegra:

“Encontro-me preso há quase nove anos e conheço muito bem o sistema
prisional comum brasileiro, pois passei por várias prisões antes de chegar a conhecer
a APAC.
Conheci na prática o sofrimento que o sistema comum impõe. Fui recebido em março
de 1992 numa cadeia com superlotação, mortes, vingança, revolta, ódio, maus tratos,
humilhação e sem nenhuma esperança de melhora. O importante era viver cada dia,
porque se acordasse vivo no dia seguinte, já era motivo de muito agradecimento, aliás,
na maioria das vezes nem isto agradecia, porque o mundo no interior de uma prisão
comum me levava a viver totalmente sem esperança, em total abandono e com o
coração repleto de ódio e sede de vingança contra tudo e contra todos.
Mas como Deus tem algo planejado na vida de cada um de nós, na minha não foi
diferente. Tive a grande oportunidade em 31 de maio de 1995 ao ser transferido para
a APAC de São José dos Campos-SP.
Cheguei ali trazendo comigo três anos e dois meses de total insegurança, revolta,
ódio, vingança, maus tratos e nervosismo vividos no sistema comum. Eu estava
totalmente machucado por dentro e por isso o tempo todo só pensava em fugir da
APAC. Os dias foram passando e eu não conseguia entender o que levava os presos
a se tratarem de um modo tão especial e com tanta amizade. Também não entrava
na minha cabeça cheia de maldades, como era possível pessoas da sociedade que
eu nunca tinha visto em minha frente, me tratarem como um filho? Como era possível
uma cadeia ser tão limpa e organizada? O que levava os presos a cumprir tamanha
disciplina e ter educação e respeito mútuo, coisa que nunca tinha presenciado e que
se me contassem diria que estavam querendo me enganar ou me iludir?
Comecei aos poucos a conhecer o trabalho feito pelos voluntários juntamente com os
recuperandos mais velhos da Entidade.
Tudo aconteceu muito rápido. Foi quando tive a oportunidade de fazer o Curso
Intensivo de Conhecimento e Aperfeiçoamento do Método APAC, para conhecer a
metodologia aplicada. Descobri neste Curso que realmente tudo poderia ser diferente
e melhor, que eu não precisava estar carregando uma carga tão grande de coisas
negativas, bastando eu acreditar naquilo que a APAC me propunha a fazer. Em
primeiro lugar, era preciso acreditar no amor dos voluntários e na mudança dos
companheiros que ali cumpriam suas condenações e que a única maneira da APAC
ajudar os presos, seria a partir da própria iniciativa dos recuperandos, ou seja, era
necessário que em primeiro lugar, o preso se ajudasse, se recuperasse com o outro,
acreditasse no outro e que ninguém pensasse somente em si próprio. Que a partir
daquele momento começasse a pensar no grupo, na nossa comunidade que ali se
encontrava, mas que também se preocupasse com aqueles companheiros que
ficaram no sistema comum que também precisavam daquela oportunidade que eu
estava tendo para então mudar de vida e acreditar num amanhã melhor.
Foi muito bom participar deste Curso, conhecer o trabalho da APAC, a luta dos
primeiros voluntários, o martírio de Franz de Castro, as perseguições das autoridades,
as conversões de pessoas da sociedade e de presos incrédulos e ignorantes como
eu era. Descobrir que o Método APAC é de uma simplicidade enorme, que não é nada
mais e nada menos que acreditar, confiar, valorizar e estimular o irmão a viver uma
nova vida, consciente de que pode mudar e ser feliz. Deus não discrimina ninguém e
acolhe a todos, independentemente dos crimes cometidos.
Hoje, o importante para mim não se resume apenas em ganhar a minha liberdade e ir
para casa, embora isto seja muito importante. Hoje tenho consciência de que o mundo
não pode melhorar somente para mim. O mundo com certeza pode mudar para muitos
companheiros que como eu, erraram e se tiverem a oportunidade de conhecer a
APAC, mudarão de vida e serão exemplo de companheirismo, sinceridade,
solidariedade, dignidade, honestidade e amor.
Entre tantas coisas bonitas vivenciadas na APAC, uma me marcou profundamente.
Eu estava perdendo a visão, ficando literalmente cego. Fui acompanhado por dois
recuperandos do regime semiaberto que me escoltaram até uma clínica de
Oftalmologia, quando o médico me disse que a minha única solução seria um
transplante de córnea ou então eu ficaria cego. Confesso que de imediato me apavorei. Senti-me só, triste e abandonado, (foi difícil voltar para a APAC). Cheguei
na APAC sem saber com que forças eu voltei após receber uma notícia tão ruim.
Somente podia ser Deus outra vez me chamando para a realidade da vida e me
lembrando que quem está com Ele nunca está sozinho. Foram realmente alguns dias
de inquietação, que eu não revelei a ninguém e tentava arrumar alguma solução para
o meu problema.
Tinha participado de uma palestra do Dr. Mário Ottoboni, na época Presidente da
APAC. Ele então dizia que não existem problemas insolúveis, todos os problemas têm
solução. Mas o meu problema eu não conseguia encontrar a solução. Estava ficando
cego a cada dia mais e mais.
Quando eu era o atual Presidente do C.S.S. do regime fechado, aliás, o destino é
realmente irônico, pois cheguei na APAC criticando tudo e todos, falando mal do
C.S.S. e dos seus integrantes, agora era o líder do C.S.S. com muito orgulho de
carinho, recebemos com grande satisfação e alegria o Bispo de São Félix do Araguaia
– MT, Dom Pedro Casaldáliga, que já conhecia o trabalho da APAC e se revelava um
grande amigo dos presos, juntamente com o senhor Mauro Kano ( grande homem)
que o acompanhou nesta tarde, que sabendo do meu problema de visão, pediu que
eu contasse ao Bispo. Assim que ele ouviu a meu relato, de imediato me confortou,
se preocupando com a gravidade do problema e se comprometendo a me ajudar no
que fosse possível.
Deus é realmente bom e misericordioso. Depois de uns 30 dias, já estava tudo certo
para eu fazer a cirurgia em Brasília-DF. Fui acompanhado por um voluntário e
padrinho da APAC, Sr. Epaminondas. Com a ajuda de vários voluntários e padrinhos
da APAC, onde se destacam o atual Desembargador do Tribunal de Justiça do Estado
São Paulo, Dr. Silvio Marques Neto e o falecido amigo Professor Hugo Veronese, que
ajudaram nas passagens de ida e de volta. Para quem tinha perdido a esperança e
chegando a quase cometer uma loucura na hora do desespero, Jesus mais uma vez,
com toda a simplicidade de quem realmente ama incondicionalmente vem me dizer:
“Eu sou o caminho a verdade e a vida, quem me segue não andará nas trevas, mas
terá a luz da vida”.
Depois de fugir de todas as formas e maneiras do amor de Deus, realmente na dor,
Deus começou a agir na minha vida. Com pouco tempo, eu já estava enxergando
novamente.
Após ter tido a oportunidade de fazer um encontro com a verdade e de ter feito uma
profunda experiência de Deus em minha vida, participei juntamente com o Dr. Mário
Ottoboni e Dr. Valdeci Antônio Ferreira, de vários Seminários de Estudos e
Conhecimentos do Método APAC, na cidade de Tangará da Serra - MT, Passos – MG,
Pato Branco-PR. Patrocínio-MG e Sete Lagoas-MG, onde pude testemunhar o
verdadeiro amor de Deus em minha vida, e revelar que através do trabalho da APAC
eu poderia ser feliz e fazer outras pessoas felizes. Ao final, posso dizer que as pessoas
que conhecem e vivem o Método APAC, descobrem o verdadeiro sentido da vida.
(BRETZ, 2011).
(Roberto Donizete de Carvalho, recuperando da APAC. Na íntegra. Depoimento citado
no trabalho.)"


APAC de Canoas/RS - Associação de Proteção e Assistência aos Condenados
Fraternidade Brasileira de Assistência aos Condenados