29 de julho de 2013



26 de julho de 2013

Campanha contra Homofobia (Portugal)

Achei genial essa campanha contra homofogia, feita em Portugal.


"Eu pareço suspeito?"

A campanha "Eu Pareço Suspeito?" é um instrumento de ação no combate ao racismo institucional. Pesquisas mostram que a violência racial agrava-se em situações de abordagem policial, onde a vítima é vista como "suspeito em potencial" por ser negro e pobre.

Howard University College of Medicine looking "suspicious"
Campanha da Universidade Howard de Medicina





24 de julho de 2013

As vozes das ruas


Marcos Rolim

“Todos os começos possuem um elemento de total arbitrariedade”, dizia Hannah Arendt. Esta condição de dar início a algo no mundo, de providenciar que algo até então inexistente surja, é equiparado por ela ao fenômeno da natalidade; afinal, “Todos nós viemos de lugar nenhum e iremos desaparecer para o nada”. 

Penso que reside aqui a primeira grande dificuldade para as tentativas de compreensão dos fenômenos sociais e políticos. A tentação que temos é a de sempre situar os fenômenos que emergem como desdobramentos naturais e necessários de outros fenômenos já conhecidos e catalogados. O fato é que eles não são este desdobramento. O novo surge sobre condições específicas, claro, mas nunca como desdobramento, no sentido de um movimento necessário e, por isso, antecipável e cognoscível antes mesmo de existir. Há muito de casual em todo início, assim como muito de ilógico e espantoso. E ainda bem que as coisas são assim. Se vivêssemos em um mundo de pura necessidade – onde tudo o que nasce fosse o resultado previsível de uma dinâmica causal, sem qualquer espaço para o acaso que ampara a criação - não haveria escolhas possíveis, mas apenas o que deve ser feito e o que não deve ser. Uma concepção que Santo Agostinho traduziu pela ideia de que a única escolha possível será sempre aquela que se faz pelo errado contra o certo, porque estar no certo, na palavra de Deus, não pode ser compreendido como uma escolha – ato da razão que se pergunta pelo sentido - mas como um ato de fé em favor da única verdade, aquela que foi revelada e que, por isso mesmo, não pode ser questionada. Compreende-se, assim, os motivos pelos quais as visões religiosas e todas as demais posturas dogmáticas – onde a verdade se emancipa da história - procuram sistematicamente inviabilizar a escolha denunciando-a como pecado ou traição. Nestas abordagens, a liberdade é conceitualmente impossível. 

O fato de estarmos diante de um fenômeno novo, expressão da liberdade que caracteriza a agência humana, não é, entretanto, suficiente para valorarmos este fenômeno. A liberdade, afinal, abre possibilidades para o agir virtuoso e para o crime, para a coragem e para a covardia, para o despreendimento e para a mesquinharia. 

Por isso, para que seja possível valorar os movimentos de protesto que sacudiram o País recentemente, será preciso, primeiro, situá-los como um amplo fenômeno de descolamento de parte expressiva da cidadania diante das instituições tradicionais da política – os partidos; da religião – as Igrejas e da indústria cultural – os veículos de comunicação social. Feito isto, penso que devemos perguntar: em termos históricos, este deslocamento configura um fenômeno progressivo ou regressivo? Desconsiderando o que é secundário ou mesmo irrelevante, as multidões que saíram às ruas aumentaram as possibilidades de mudanças virtuosas ou agregam ameaças maiores do que aquelas que já tínhamos antes das mobilizações? Para os que apreciam metáforas óbvias: qual o seu gigante preferido, o que acordou ou o que dormia?

Desde uma posição conservadora parece claro que a preferência recairá sempre sobre um gigante que hiberne, se possível em todas as estações. Tradicionalmente, pelo contrário, as posições progressistas costumam saudar a presença do povo nas ruas, especialmente quando em busca de direitos e reformas democratizantes. 

A esquerda brasileira, desde as posições dogmáticas ancoradas no século XIX até às modernas versões da social-confusão, valoraram imensamente movimentos como o Occupy Wall Street nos EUA e o 15 de março (15 –M) na Espanha. Antes disto, havia identificado na revolta de 2005 dos jovens franceses descendentes do Magreb um movimento anticapitalista. O mesmo lhe pareceu quando os jovens ingleses incendiaram prédios e saquearam lojas em 2011. A primavera árabe, entretanto, já havia produzido algum tipo de desconforto. Afinal, ela deixava evidente a luta contra regimes ditatoriais que, como regra, não são denunciados por grande parte da esquerda. Como todos aqui devem saber, o stalinismo, especialmente, tem ojeriza às primaveras, como ficou claro em 56 na Hungria e em 68 na Tchecoslováquia. 

Ocorre que os deuses costumam apreciar as ironias. O que parece ser ainda mais verdadeiro no Olimpo quando o assunto é o Brasil. Entre nós, os movimentos jovens de protesto que possuíam características semelhantes aos já mencionados a saber: movimentos de borda e de ativismo autoral (para empregar dois dos conceitos utilizados por Marina Silva desde 2010), sem lideranças e hierarquias, organizados horizontalmente a partir das redes sociais e com reivindicações difusas, passaram a ser vistos com desconfiança, temor e contida hostilidade por importantes setores da esquerda tradicional. Já a esquerda ortodoxa, que esteve desde o início presente nas mobilizações, não percebeu que as aspirações genéricas por mudanças envolviam também a recusa às formas tradicionais de manifestações políticas controladas e dirigidas por partidos. O resultado foi e segue sendo o de um estranhamento notável. Um estranhamento que não é apenas de ideologias, linguagens e valores, mas de mundos mesmo. Nosso mundo que está grávido de outro não reconhece o que está gestando nem deseja o parto. 

Penso que o novo mundo se rebela, porque não se conforma com a ausência de caminhos, com o deserto de ideias e, sobretudo, com o cinismo. 

Para os jovens que constituíram o núcleo ativo dos movimentos de rua, o mundo que temos é estruturado sobre mentiras, injustiças, violências e preconceitos. Se disséssemos a eles que o mundo é mais do que isso, que há nele tradições importantes de luta e de amor; que a dignidade, a reflexão, a solidariedade e a decência não foram extintas e que seguem, a seu modo, esgrimindo seus argumentos e construindo exemplos, eles possivelmente responderiam que, muito bem, que estão dispostos a reconhecer isto, mas que não encontram nas instituições que deveriam representar tais tradições e valores uma só expressão concreta deles. Neste momento, seria a nossa vez de dizer: sim, este parece ser realmente o problema central. 

Seria preciso que a política fosse o espaço para as reformas que moldassem as instituições de acordo com as tradições e os valores mais generosos que a humanidade produziu, mas e se as instituições políticas tiverem se tornado, precisamente, o centro desta impossibilidade? Se, por razões históricas que não importam agora, chegássemos à conclusão de que o modelo político que temos – vale dizer: as regras de representação e disputa eleitoral, os partidos políticos, o conteúdo das relações entre os poderes instituídos, as possibilidades de intervenção da cidadania nos processos de tomada de decisão e os mecanismos de controle da sociedade civil sobre o Estado - que este modelo fosse o maior impedimento para qualquer processo de reforma? Se descobríssemos que este modelo político e a forma de Estado que lhe é correspondente forjou lideranças que não lideram, gestores que não administram e representantes que não representam? Que a grande maioria dos que ocupam funções públicas está orientada por objetivos de Poder sempre tomados como prioritários diante de qualquer ideia ou mesmo de qualquer princípio? Se fosse este o caso, que espaço restaria para os sonhos de mudança que não as ruas? E como exigir que estes sonhos constituíssem programas concretos e referendassem as regras tradicionais do discurso e da representação ..... se são sonhos? 

O que penso seja fundamental compreender é que um mundo sem sonhos seria o lugar perfeito para a produção da loucura. Um mundo sem sonhos – como realidade de pura necessidade - só poderia oferecer aos indivíduos a submissão. Uma política concebida sem sonhos, por seu turno, seria aquela em que não haveria espaços para a inovação, para a proposição de uma nova sucessão causal e tampouco para a coragem e para as escolhas morais. Ao invés disso, a oferta do mal seria sempre apresentada como a necessidade do “mal menor”. Os que habitassem este deserto se acostumariam de tal modo com o mal que seriam obrigados a se esquecer dele. Os adversários do passado seriam agora seus estimados aliados; os métodos antes repudiados seriam assumidos como lógicos e os que não fossem capazes de compreender tamanho gosto pela “dialética” seriam então os inimigos e todos os que fossem capazes de manter um padrão moral seriam considerados não-confiáveis. Em um mundo político estruturado desta forma, os companheiros seriam convertidos em cúmplices e seu lema poderia ser aquele definido pela SS: “Minha honra chama-se lealdade”. 

Hannah Arendt lembra uma passagem em “Os Irmãos Karamázov”, onde Dmitri K. pergunta a Starov o que poderia salvá-lo. A resposta é: “- Acima de tudo, nunca minta para si mesmo”. Bem, é possível que alguém apresente o mundo político que temos com cores muito diferentes destas que acabo de usar para imaginar uma política sem sonhos, mas acho, sinceramente, que não reconhecer que estamos vivendo - em boa medida pelo menos - as características mencionadas seria o mesmo que mentir para si mesmo. 

Entendo que o mundo político que foi criado pelas nossas tradições, o modelo político que temos, as ideias de representação tais como elas têm sido praticadas, de atividade parlamentar, de governabilidade, de alianças e muitas outras dizem respeito a um mundo que se tornou deserto. Não apenas porque está vazio de perspectivas utópicas, mas porque o vazio produzido pelo fim das utopias só se tornou vazio pela ausência de valores. Essa é a maior e a mais importante mensagem que brotou nas ruas do País, em meio ao gás lacrimogêneo e às balas de borracha. Os movimentos não o disseram explicitamente, não há qualquer palavra de ordem que sintetize esta aspiração, mas as vozes das ruas dizem, sobretudo, que se cansaram de tanta conversa fiada e de tanto cinismo. E essa é, precisamente, a única mensagem que não será ouvida pelos donos do Poder. Simples e logicamente. O que irá prolongar a crise política e, talvez, conduzir o Brasil a uma situação bem mais delicada no próximo ano, emoldurado pela Copa do Mundo e pelas eleições presidenciais. 

Para que a crise não se agrave seria preciso enfrentar com radicalidade o tema da reforma política, o que – como se percebe claramente – não será feito. Os políticos brasileiros perceberam a força dos ventos e trataram de reforçar o telhado. A grande maioria deles não parece imaginar o que poderá ser a tempestade que estimulam pela ausência de uma resposta consequente, lacuna que é alargada pela mediocridade e pela ambição. Para uma reforma que mereça este nome deveríamos propor um conceito novo de política, algo que pudesse expressar a ruptura com o antigo modelo e construir uma engenharia que premiasse a virtude. Penso que no centro deste conceito deveríamos localizar a política como disputa de ideias e a representação como honra. 

A noção da política como disputa de ideias serviria para que todas as escolhas fossem feitas com base em programas, o que exige a quebra do monopólio dos partidos na representação. Movimentos políticos não-partidários poderiam constituir plataformas legítimas e apresentar candidaturas avulsas ou listas independentes de candidatos ao parlamento, tanto quanto os partidos. As regras eleitorais tratariam de equalizar estas possibilidades de tal forma que a proporção dos eleitores fosse rigorosamente respeitada. 

Já a noção da representação como honra só pode ser impulsionada com o fim da política como carreira. Nesta proposta, não haveria qualquer tipo de reeleição, nem de mandatos sucessivos em níveis distintos de representação. Os eleitos para um mandato se tornariam, assim, inelegíveis por 8 anos. A mesma condição de inelegibilidade seria aplicada aos que assumissem cargos de confiança no serviço público. 

Penso que apenas estes dois pontos – a política como disputa de ideias e a representação como honra – são mais do que suficientes para demonstrar porque ideias como a do plebiscito ou do referendo para a reforma política são não apenas inúteis, mas diversionistas, vez que impedem que a discussão mais importante a respeito do conceito de modelo político seja sequer formulada. O desafio pressupõe uma Assembleia nacional de representantes (vamos usar esta palavra ao invés de Constituinte), com mandato exclusivo para a reforma, com possibilidade de candidaturas avulsas e regra de inelegibilidade de 8 anos, o que exigiria uma emenda constitucional. 

Muito obrigado!




Pala



“ Com este meu palinha velho
Não temo chuva e nem frio”
(música Romance do Pala Velho parceria entre Noel Guarany e Cenair Maicá).

Gaúcho com seu Pala em dia de neve nesta segunda-feira (22.03.13) em São José dos Ausentes

Pala: de lã ou algodão, quando protege contra o frio, ou de seda, quando protege contra o calor. É sempre retangular, com franjas nos quatro lados. Freqüentemente ostenta listas retas, paralelas aos lados maiores do retângulo. A gola do pala é um simples talho, por onde o homem enfia o pescoço.

Poncho: de lã grossa, invariavelmente. Quase sempre é azul escuro, forrado de baeta colorada, mas existem também ponchos negros, com forro de baeta amarelada com xadrez verde e ainda ponchos de cor cinza, com forro de baeta encarnada. O poncho tem a forma circular ou ovalada. O poncho só protege contra o frio e a chuva. Não tem franjas, nem listas. A gola é alta, abotoada e há um peitilho na frente do poncho. 

Pala-poncho: também chamado de poncho-pala, é um pala maior, de lã industrializada, de forma semi-retangular com os cantos levemente arredondados, e com franjas ao redor. O pala-poncho também só protege contra o frio. Não se trata de invenção moderna, pois já existia no fim do século passado.


Foto: Félix Zucco

21 de julho de 2013

Fatos e fotos – O que aconteceu com os ilustres desconhecidos que protagonizaram as mais famosas fotografias mundiais?

Publicado em 21 de julho de 2013 | por Clariana Touza
"Recentemente o Oráculo da Superinteressante respondeu a uma dúvida cruel de um leitor: “O que houve com o chinês que desafiou o tanque em Pequim?”.  E fiquei pensando: o que teria acontecido com todos os outros ilustres desconhecidos que protagonizaram as mais famosas fotografias mundiais? Confira abaixo nove momentos históricos marcados por rostos de cidadãos comuns:
1- O chinês que paralisou os tanques (1989), por Jeff Widene:
O momento histórico em questão apontado pelo leitor era uma China estudantil que brigava por seus direitos e pela democracia em 1989, quando um jovem (não se sabe ao certo se era estudante ou trabalhador) se posicionou em frente a uma linha de tanques que avançava pela Praça da Paz Celestial em Pequim e assim os paralisou. O chinês que conduzia o tanque se recusou a acatar a ordem de avançar sob o manifestante pois poderia causar algum dano ao jovem e assim, todos os demais tanques do comboio militar foram obrigados a parar. A cena foi fotografada por Jeff Widener e percorreu o mundo como símbolo do movimento democrático Chinês e resistência ao governo, além de ter servido como exemplo da preocupação dos soldados do Exército popular em proteger a população.
Na época o jovem não foi identificado e foi apelidado de Homem-tanque.  Hoje, sabe-se muito menos ainda sobre o homem. Muitos acreditam que um ano após o episódio histórico, o corajoso cidadão chinês foi preso e morto pelo governo, porém na mesma época o jornal britânico Sunday Expressafirmou ter identificado o sujeito como um estudante de 19 anos chamado Wang Weilin. A informação nunca foi confirmada e em 2006, o mesmo jornal publicou outra matéria dizendo que o Homem-tanque estava vivo e trabalha como arqueólogo. Em 2009 o também britânico The Times noticiou que tudo não passava de uma invenção midiática e que as autoridades jamais foram capazes de identificar o homem. Fato é que ninguém sabe o que realmente aconteceu com o jovem que paralisou um comboio militar inteiro e se sabem, o governo chinês fez questão de abafar qualquer informação.
2- A garota afegã (1984), por Steve McCurry:
A fotografia A Garota afegã, tirada por Steve McCurry, da National Geographic, em 1984, foi um escândalo para o mundo oriental, já que a jovem aparece com o rosto descoberto, o que era proibido por lei. A menina fotografada é Sharbat Gula, que na época tinha 12 anos e frequentava uma escola informal no campo de refugiados Nasir Bagh, no Paquistão. Sharbat saiu de seu país-natal fugindo dos soviéticos com sua família e perdeu seus pais enquanto fugiam de um bombardeio, tendo chegado apenas ela, a avó e os irmãos ao acampamento. Nunca antes tendo visto uma máquina fotográfica, encantada, a menina aceitou o desafio de ser fotografada e descobriu o rosto para um fotógrafo estrangeiro. A foto virou capa da National Geographic em junho de 1985.
Em janeiro de 2002, McCurry volta ao acampamento em Nasir Bagh com uma equipe a fim de saber o paradeiro da menina afegã, mas não a encontra. Após algum tempo, o fotógrafo mostra a capa da revista para um morador local que conta o que sabe sobre Sharbat:  junto com os irmãos, ela voltou ao Afeganistão. A partir de então, um documentário pela National Geographic foi produzido, e A menina afegã: uma vida revelada foi ao ar em 2003. Nessa época Sharbat estava com 29 (ou 30 anos, ela mesmo não sabe sua idade pois não possui registro) e todos os sinais da guerra, da invasão e de suas dificuldades de vida eram nítidos nos olhos marcantes e no rosto sério e cansado. Hoje, Sharbat é mãe de três meninas e continua a viver no Afeganistão. Dona-de-casa, segue a risca as regras do seu país e o escândalo de ter sido fotografada com o rosto descoberto em 1984 parece não ter impedido que seu marido se casasse com ela.
3-Napalm girl (1972), por Nic Ut:
Em 1972, um avião norte-americano bombardeou a região de Trang Bang, no Vietnã, com napalm. O Vietnã na época era dividido em Norte e Sul, sendo o Norte comunista e o Sul capitalista e controlado pelos EUA, portanto a Guerra do Vietnã se deu por diferenças ideológicas fomentadas pelas duas maiores nações e os vietnamitas ficaram no meio do fogo cruzado, como é o caso de Kim Phuc e sua família, que foram atacadas em Trang Bang. Ao ser atingida pela bomba e ver suas roupas em chamas, a menina Kim de apenas 9 anos saiu correndo e chorando. Quando teve suas vestes completamente consumida pelo napalm, o fotógrafo vietnamita Nic Ut a fotografou em seu desespero. O maior problema no entanto é que os soldados vietcongues ao tentar ajudar a menina, jogaram água e fizeram o napalm se espalhar mais depressa e queimar a pele de forma mais profunda, já que eles estavam lidando com um novo tipo de material bélico. Depois de fotografar Kim, Nic Ut a levou ao hospital, onde ela passou 14 meses e fez inúmeros enxertos de pele. O fotógrafo continuou a visitar a menina durante três anos após o ocorrido e só parou de vê-la quando ela foi evacuada da província onde vivia. Essa foto rendeu a Nic o Prêmio Pulitzer e o World Press Photo of the Year.
Kim e sua filha
Kim Phuc cursou medicina, se casou e hoje vive no Canadá com suas duas filhas e seu marido, além de ter criado a ONG Fundação Kim Phuc, que é vinculada à ONU e auxilia no tratamento médico e psicológico de crianças que foram vítimas de guerras, e se tornou embaixadora da Boa vontade, um projeto da UNESCO. Anos depois, o capitão John Plummer, responsável pelo ataque das bombas napalm na vila de Kim veio a público pedir desculpas pelo feito, confessou ter se tornado alcoólatra após ver o estrago que causou e depois virou pastor de uma Igreja Metodista nos EUA, mas ele afirma nunca ter se perdoado em seu coração e hoje dá palestras sobre paz ao redor do mundo. Bom, pelo menos Kim o perdoou.
4-Espreitando a morte (1994), por Kevin Carter:
Em 1994, o fotógrafo sudanês Kevin Carter caminhava por uma região pobre de seu país quando viu a cena mais traumatizante de toda sua vida: uma criança subnutrida e faminta se arrastava pelo chão, tentando chegar até a região onde era guardada a comida em um campo das Nações Unidas, que ficava cerca de 1 km a frente. O mais horripilante nessa foto é o abutre, que fita a criança e cheira a morte dela, como se esperando ali sua próxima refeição. Ninguém sabe quem era a criança ou que aconteceu com ela, mas muito provavelmente morreu de fome e doente. Kevin ficou tão perturbado com a cena que a fotografou e foi embora. O fotógrafo ganhou o prêmio Pulitzer de fotojornalismo naquele ano, mas cerca de três meses depois de fotografar a menina, entra em depressão profunda e se suicida. Relatos do seu diário foram encontrados e diziam: “Querido Deus, eu prometo que nunca mais desperdiçarei comida, não importa o quanto ruim pareça e o quão cheio eu esteja. Rezo para que Você proteja esse corpo, oriente-o e o leve para longe da miséria. Rezo para que sejamos mais sensíveis perante o mundo que nos rodeia e não nos deixemos ficar cegos por nossa própria natureza egoísta e interesseira.”

5- Omayra Sánchez (1985), por Frank Fournier:

Em 1985, o vulcão Nevado del Ruiz na Colômbia voltou a ativa e fez 25 mil vítimas, entre elas Omayra Sánchez, que tinha 13 anos de idade. A menina ficou presa durante três dias entre destroços da própria casa, lama, água e os corpos de seus pais e segundo relatos, tentava ser positiva e forte e conversava sobre voltar às aulas e rever seus amigos. Quando os paramédicos finalmente chegaram, disseram não poder fazer muita coisa por ela já que não dispunham de muito material de trabalho. Essa imagem virou o símbolo do descaso das autoridades colombianas com as vítimas da catástrofe e é o começo do chamado processo de globalização, já que a agonia de Omayra foi vivenciada pelas câmeras de televisão em tempo real por todo o mundo. A fotografia só foi publicada por Frank meses após o falecimento da menina.
6- Protesto silencioso (1963), por Malcom Browne:
Thich Quang Duc, um monge budista do Vietnã, ateou fogo em seu próprio corpo em um cruzamento para chamar atenção à repressão que o Budismo vinha sofrendo em seu país. O regime católico, que controlava o governo do Vietnã do Sul na época, reprimia qualquer manifestação religiosa que não fosse a católica e os monges insatisfeitos foram às ruas protestar. Thich Duc queimou até a morte sem sequer mexer um músculo ou gritar, ele se manteve imóvel até o momento em que morreu. Outros monges em solidariedade repetiram o feito. Após sua morte, ele foi cremado (sim, ainda tinha o que cremar) e seu coração permaneceu intacto ao processo, o que o fez ser considerado quase como santo. Seu órgão foi guardado no Banco de Reserva de seu país como uma espécie de relíquia. Essa imagem virou capa de CD da politizada banda Rage Against the Machine em 1922.

7- O beijo da Times Square ou V-J Day: Dia da vitória sobre o Japão (1945), por Alfred Eisenstaedt:
Após o final da II Guerra Mundial, os EUA celebravam sua vitória e um jovem marinheiro não se conteve e começou a beijar todas as moças que passavam na sua frente. Segundo o fotógrafo, o homem acabara de desembarcar em seu país natal e foi fotografado por acaso, já que Alfred Eisentaedt afirma que estava na rua por outro acontecimento. O marinheiro não foi identificado e a moça em questão era uma enfermeira que passou no momento e foi agarrada por ele. Alfred conta que o que o chamou atenção no beijo foi o contraste entre o branco e o escuro das roupas deles e que logo depois da cena, ela lhe deu um bofetão na cara. A fotografia representa a empolgação de um jovem ao ter sobrevivido à maior Guerra mundial e de sua satisfação pessoal de dever cumprido em nome da pátria, além de trazer duas imagens simbólicas de uma nação que acabara de vencer a guerra: uma enfermeira e um marinheiro. A fotografia e sua pose foram reproduzidas massivamente e viraram orgulho dos EUA, mas o fato de ela ser uma imagem tão marcante é o seu acaso e a primeira vez em que uma cena tão inusitada ocorre em um espaço público movimentado.
Shain em evento social revivendo seu beijo de 1945
 A identidade da enfermeira só ficou conhecida no final da década de 70, quando Shain escreveu ao fotógrafo se identificando como a mulher da foto. Ela trabalhava em um hospital em Nova York no período da Guerra e diz desconhecer a identidade do homem que a beijou. Após se identificar como a moça da foto de 1945, ela foi convidada a participar de eventos relacionados à guerra. A então ex-enfermeira morreu em 2010, deixando três filhos, seis netos e oito bisnetos. “Minha mãe sempre estava disposta a enfrentar novos desafios, e cuidar dos veteranos da Segunda Guerra Mundial lhe dava energia para aceitar outra chance de fazer a diferença”, afirmou seu filho Justin Decker em um comunicado feito à impressa. Mas até hoje se desconhece o beijoqueiro da Times Square.

8-A Mãe migrante (1936), por Dorothea Lange
A Grande depressão foi o caos para os EUA e mais ainda para os fazendeiros, que plantavam para tentar ganhar algum dinheiro e não tinham como alimentar seus próprios filhos. Pensando nisso, Frank Roosevelt frente ao Ministério do Reassentamento (depois, Ministério de Proteção Rural), mandou uma equipe de fotógrafos para mostrar a necessidade de uma assistência social e para documentar a vida dos fazendeiros que migraram para a Califórnia, mas acabaram encontrando ali uma vida tão miserável quanto a que viviam anteriormente em outras regiões do país.
Um dia quando voltava de seu trabalho, uma das fotógrafas chamada Dorothea Lange reparou em uma placa na estrada que indicava o acampamento dos trabalhadores migrantes. Dorothea seguiu seu instintito e foi até lá. Os trabalhadores estavam indo embora dali, já que a chuva e o fim do inverno castigaram o pouco do que sobrou da plantação de ervilhas. Porém, havia uma família estagnada e imóvel. Uma mãe sentada com cara de cansada, que tinha um bebê dormindo no colo, estava cercada por crianças descabeladas e sujas. Elas não comiam direito há dias, já que os restos dos vegetais estavam congelados, e tinham vendido os pneus de seu carro para comprar comida. A fotógrafa se aproximava da mãe, que parecia não perceber a presença de Lange ali, assim como não reparava em seus filhos ao redor, que se reencostavam nela o tempo todo.
Lange fotografou a cena, apesar de esse não ser exatamente o tipo de fotografia que o Ministério pretendia, visto que não trazia o estado do acampamento e da região, porém a imagem ganhou o mundo como símbolo da pobreza. Ao ver A mãe migrante, o governo mandou comida para lá. A mãe identificada como Florence Thompson tinha apenas 32 anos na época, mas aparentava muito mais devido ao excesso de rugas, e  morreu pobre em 1983, apesar de a fotografia ter sido divulgada em jornais e revistas incansavelmente e ter virado selo dos correios americanos.

9- Menino carregando irmão morto em Nagasaki (1945), por Joe O’Donnell
 Joe O’Donnell era um jovem fuzileiro naval americano na II Guerra Mundial e estava em território japonês quando as bombas de Hiroshima e Nagasaki foram jogadas. Ele, assim como muitos, sofreu com o efeito da radiação e trouxe sequelas tanto físicas quanto psicológicas para o resto de sua vida. Em entrevista, O’Donnel relatou o episódio da foto: “Eu vi um menino andando aparentando ter aproximadamente dez anos e nas costas, ele carregava uma criança. Naqueles dias, no Japão, muitas vezes era possível ver as crianças brincando com seus irmãos ou irmãs mais novas, mas esse menino era claramente diferente. Eu pensei que ele estava lá por uma boa razão. Ele não tinha sapatos e seu rosto estava rígido.
A cabeça do bebê cambaleou de lado a lado, como se ele estivesse dormindo. O menino ficou lá por cinco ou dez minutos.  Os homens com máscaras brancas se aproximaram dele e silenciosamente começaram a desatar a corda que segurava a criança. Naquele momento, eu vi que a criança estava morta. O homem pegou a criança em seus braços, e colocou ela no fogo. O menino continuou a ficar imóvel, olhando para o fogo. Ele cerrava seus lábios com tanta força que eles estavam cheios de sangue. Então, o menino virou-se e foi embora em silêncio. ” Ninguém sabe o que houve com o menino que entregou o irmão morto aos paramédicos e o irmãozinho dele foi cremado junto com outros corpos sem ao menos ser identificado, já que naqueles tempos de guerra era difícil manter um registro atualizado das pessoas. Crê-se que o menino japonês mais novo tenha morrido com os efeitos da radiação da bomba atômica, mas a verdade é que ninguém sabe dizer absolutamente nada sobre as duas crianças da foto, só o que aconteceu naqueles 10 minutos.
Quando resolvi matar a curiosidade sobre o que havia acontecido com os ilustres desconhecidos que marcaram o mundo ao retratar momentos históricos, não sabia que enfrentaria o problema da falta de informações. Para montar essa matéria, tive que selecionar imagens que contassem uma história (por isso eliminei tantas outras) e recorrer a inúmeras fontes e mesmo assim, não foi o suficiente. Parece não haver um interesse em se manter dados ou um descaso geral, mesmo quando se tratando de pessoas que rodaram o mundo através das fotografias.
Enquanto escrevia a matéria, me deparei com um dilema pessoal: eu me sentia mal por estar parecendo sensacionalista. Eu me sentia amadora contando verdades tão cruéis da humanidade e eu me esforcei para revelar tragédias do mundo. E para que? Com a matéria finalizada, redescobri o porquê de escrever sobre isso: eu não queria mostrar a crueldade humana, eu queria falar sobre a vida, ainda que em alguns casos a morte seja inegável. Eu procurava retratos de um mundo que encara problemas, tragédias, guerras e situações inusitadas, eu desejava mostrar como lidamos com isso.  Existia uma ânsia em relatar como viramos história ao estarmos no lugar errado e na hora errada. A vida acontece e temos de lidar com fatos. O descaso, o egocentrismo, a ganância e o medo existem e temos que lidar com eles todos os dias. A matéria se propõe a ser um retrato do mundo, ainda que se mostre cruel. Cada olhar, cada pose e gesto contam uma verdade e minha intenção era buscar estes relatos de vida e momentos históricos pelas lentes de uma máquina fotográfica."

Revisado por Carlos Cavalcanti
  Clariana Touza é uma entusiasta de qualquer tipo de expressão artística. Estudante de Artes Cênicas, encontrou sua essência criativa na montagem de cenários e figurinos. Pessimista, metódica, perfeccionista e chata assumida, tenta ler o maior número de livros e revistas que seu sono permite. Leitora voraz de Stephen King, fã do gênero terror/suspense nas telonas e louca por um drama.

20 de julho de 2013

Os bastidores, a charlatanice e o escárnio da importação de médicos

Fátima Oliveira, em OTEMPO
Médica – fatimaoliveira@ig.com.br @oliveirafatima_

No Brasil, a medicina como profissão liberal foi extinta pelo assalariamento de “largas camadas de profissões intelectuais”; e a categoria médica se proletarizou em condições precaríssimas.
Trocando em miúdos: há postos de trabalho, mas emprego – com direitos trabalhistas – é escasso, seja de “carteira assinada” por prestadores de serviços ao Sistema Único de Saúde (SUS) ou via concurso público. Como é impossível SUS sem médico, o alicerce do SUS é a precarização do trabalho médico. Até aqui carregamos o SUS em nosso lombo! “Eu conheço cada palmo desse chão”.
Quem mais avilta o trabalho médico é o Estado, nas três esferas de governo: municipal, estadual e federal – o governo federal mantém poucos serviços de saúde (nem é seu papel!), mas, contando com hospitais universitários federais, o volume de postos de trabalho médico em regime de RPA (Recibo de Pagamento de Autônomo) é expressivo, e, sem ele, tais serviços se inviabilizam, literalmente. Daí o aperreio para criar a Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares, cuja maior finalidade, ao bem da verdade, é sanar, sem concurso (ai, meus sais!), as irregularidades advindas do regime de RPA!
Se todos os que trabalham em hospitais universitários federais “como RPA” entrassem na Justiça requerendo seus direitos trabalhistas, instalariam o caos no país: todos fechariam. Não sobraria um! Vale para hospitais e UPAs, estaduais e municipais, pois quase 100% abusam de contratação precária.
Em tal contexto, sem resolver pendências arriscadas, o governo Dilma anunciou a importação de 6.000 médicos, sob argumentos que beiram a charlatanice política, colocando a população contra a categoria médica nacional, ao dizer que é para suprir a falta de médicos nos cinturões e nos grotões de pobreza: periferias metropolitanas e pequenas cidades, onde brasileiros não querem trabalhar.
Ora, me compre um bode! A “interiorização do trabalho médico” requer atrativos concretos, para além do médico, do estetoscópio e do “aparelho de pressão”, e não trabalho precário temporário, sob os humores do mandatário de plantão: não rezou pela cartilha do prefeito, está no olho da rua!
Não é uma postura patriota oferecer a médicos estrangeiros o que nunca acenaram para brasileiros: empregos reais, aos montes. E o pior, “modernizando” trabalho escravo: supressão do direito de ir e vir! Nada contra médico de qualquer nacionalidade vir trabalhar no Brasil, desde que em igualdade de condições dos aqui formados, o que exige “passar” na revalidação de diploma.
É fato: o Estado brasileiro sabe, permite e pratica a exploração. As entidades médicas foram omissas na garantia de dignidade trabalhista no estabelecimento do SUS.
No popular: as entidades médicas e nós, profissionais da medicina, pouco nos lixamos para a precarização do nosso trabalho: não nos empenhamos por uma carreira de Estado para médico, hoje necessidade imperiosa para a equidade na distribuição de médicos no país.
E por que não o fizemos? Falta de visão política; incompreensão da inexorável proletarização da categoria médica; e muito pelo embotamento da empáfia e do fetiche da cultura da medicina profissão liberal, numa conjuntura que a abolia e em que o trabalho médico virou mercadoria, vendida de modo aviltante. Vou pular, pois a lista de culpabilidade involuntária e inconsciente é enorme…
Agora que despertamos, é cair no bredo por uma carreira de Estado para médico até a vitória. Nem mais, nem menos. Nós, cidadãos como todo o povo, não podemos esperar cair do céu.



Médicos dos EUA avaliam sistema de saúde cubano

Um Modelo Diferente – Atenção Médica em Cuba. Dois médicos norte-americanos avaliam o sistema de saúde de Cuba

Edward W. Campion, M.D., and Stephen Morrissey, Ph.D.
The New England Jornal of Medicine
Para um visitante dos Estados Unidos, Cuba desorienta. Automóveis norte-americanos estão em todo lugar, mas todos datam dos anos 50. Nossos cartões bancários, cartões de crédito e telefones inteligentes não funcionam. O acesso à internet é praticamente inexistente. E o sistema de saúde também parece irreal. Há médicos demais.
Todo mundo tem um médico da família. Tudo é de graça, totalmente de graça — e não precisa de aprovação prévia ou de algum tipo de pagamento. Todo o sistema parece de cabeça para baixo. É tudo muito organizado e a prioridade absoluta é a prevenção. Embora Cuba tenha recursos econômicos limitados, seu sistema de saúde resolveu alguns problemas que o nosso [dos Estados Unidos] ainda nem enfrentou.
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(Reprodução)
Médicos de família, junto com enfermeiras e outros profissionais de saúde, são os responsáveis por dar atendimento primário e serviços preventivos para seu grupo de pacientes — cerca de mil pacientes por médico em áreas urbanas.
Todo o cuidado é organizado no plano local e os pacientes e seus profissionais de saúde geralmente vivem na mesma comunidade. Os dados médicos em fichas de papel são simples e escritos à mão, parecidos com os que eram usados nos Estados Unidos 50 anos atrás. Mas o sistema é surpreendentemente rico em informação e focado na saúde da população.
Todos os pacientes são categorizados de acordo com o nível de risco de saúde, de I a IV. Fumantes, por exemplo, estão na categoria de risco II, e pacientes com doença pulmonar crônica, mas estável, ficam na categoria III.
As clínicas comunitárias informam regularmente ao distrito sobre quantos pacientes tem em cada categoria de risco e sobre o número de pacientes com doenças como a hipertensão (bem controlada ou não), diabetes, asma, assim como sobre o status de imunização, data do último teste de Papanicolau e casos de gravidez/cuidado pré-natal.
Todo paciente é visitado em casa uma vez por ano e aqueles com doenças crônicas recebem visitas mais frequentes. Quando necessário, os pacientes podem ser direcionados a policlínicas distritais para avaliação de especialistas, mas eles retornam para as equipes comunitárias para acompanhamento. Por exemplo, a equipe local é responsável por garantir que o paciente com tuberculose siga as recomendações sobre o regime antimicrobial e que faça os exames.
Visitas em casa e conversas com familiares são táticas comuns para fazer com que os pacientes sigam as recomendações médicas, não abandonem o tratamento e mesmo para evitar gravidez indesejada. Numa tentativa de evitar infecções como a dengue, a equipe de saúde local visita as casas para fazer inspeções e ensinar as pessoas sobre como se livrar da água parada.
Este sistema altamente estruturado, orientado para a prevenção, produziu resultados positivos. As taxas de vacinação de Cuba estão entre as mais altas do mundo.
A expectativa de vida de 78 anos de idade é virtualmente idêntica à dos Estados Unidos. A taxa de mortalidade infantil em Cuba caiu de 80 por mil nos anos 50 para menos de 5 por mil — menor que nos Estados Unidos, embora a taxa de mortalidade materna esteja bem acima daquela dos países desenvolvidos e na média para os países do Caribe.
Sem dúvida, os resultados são consequência de melhorias em nutrição e educação, determinantes sociais básicos para a saúde pública. A taxa de alfabetização de Cuba é de 99% e o ensino sobre saúde é parte do currículo obrigatório das escolas. Um recente programa nacional para promover a aceitação de homens que fazem sexo com homens foi desenhado para reduzir as taxas de doenças sexualmente transmissíveis e aumentar a aceitação e adesão aos tratamentos.
Os cigarros já não são oferecidos na cesta básica mensal e o número de fumantes decresceu, embora as equipes médicas locais digam que continua difícil convencer fumantes a deixar o vício. Os contraceptivos são gratuitos e fortemente encorajados. O aborto é legal, mas considerado um fracasso do trabalho de prevenção.
Não se deve romantizar o sistema de saúde cubano. O sistema não é desenhado para escolha do consumidor ou iniciativas individuais. Não existe sistema de saúde privado pago como alternativa. Os médicos recebem benefícios do governo como moradia e alimentação, mas o salário é de apenas 20 dólares por mês. A educação é gratuita e eles são respeitados, mas é improvável que obtenham riqueza pessoal.
Cuba é um país em que 80% dos cidadãos trabalham para o governo e o governo é quem gerencia orçamentos. Nas clínicas de saúde comunitárias, placas informam aos pacientes quanto o sistema custa ao Estado, mas não há forças de mercado para promover eficiência.
Os recursos são limitados, como descobrimos ao ter contato com médicos e profissionais de saúde cubanos como parte de um grupo de editores-visitantes dos Estados Unidos. Um nefrologista de Cienfuegos, a 240 quilômetros de Havana, tem uma lista de 77 pacientes em diálise na província, o que em termos de população dá 40% da taxa dos Estados Unidos — similar ao que era nos Estados Unidos em 1985.
Um neurologista nos informou que seu hospital só recebeu um CT scanner doze anos atrás. Estudantes norte-americanos de universidades médicas cubanas dizem que o trabalho nas salas de cirurgia é rápido e eficiente, mas com pouca tecnologia. Acesso à informação via internet é mínimo. Um estudante informou que tem 30 minutos por semana de acesso discado.
Esta limitação, como muitas outras dificuldades de recursos que afetam o progresso, é atribuída ao embargo econômico dos Estados Unidos [imposto em 1960], mas podem existir outras forças no governo central trabalhando contra a comunicação fácil e rápida entre cubanos e os Estados Unidos.
Como resultado do estrito embargo econômico, Cuba desenvolveu sua própria indústria farmacêutica e agora fabrica a maior parte das drogas de sua farmacopeia básica, mas também alimenta uma indústria de exportação. Recursos foram investidos no desenvolvimento de expertise em biotecnologia, em busca de tornar Cuba competitiva no setor com os países avançados.
Existem jornais médicos acadêmicos em todas as especialidades e a liderança médica encoraja fortemente a pesquisa, a publicação e o fortalecimento de relações com outros países latino-americanos. As universidades médicas de Cuba, agora 22, continuam focadas em atendimento primário, com medicina familiar exigida como primeira residência de todos os formandos, embora Cuba já tenha hoje o dobro dos médicos per capita que os Estados Unidos.
Muitos dos médicos cubanos trabalham fora do país, como voluntários num programa de dois anos ou mais, pelo qual recebem compensação especial. Em 2008, havia 37 mil profissionais de saúde cubanos trabalhando em 70 paises do mundo. A maioria trabalha em áreas carentes, como parte da ajuda externa de Cuba, mas alguns estão em áreas mais desenvolvidas e seu trabalho traz benefício financeiro para o governo cubano (por exemplo, subsídios de petróleo da Venezuela).
Todo visitante pode ver que Cuba continua distante de ser um país desenvolvido em infraestrutura básica, como estradas, moradias e saneamento. Ainda assim, os cubanos começam a enfrentar os mesmos problemas de saúde de países desenvolvidos, com taxas crescentes de doenças coronárias, obesidade e uma população que envelhece (11,7% dos cubanos tem 65 anos de idade ou mais).
O seu incomum sistema de saúde enfrenta estes problemas com estratégias que evoluiram da peculiar história política e econômica de Cuba, um sistema que — com médicos para todos, foco em prevenção e atenção à saúde comunitária — pode informar progresso também para outros países.
http://www.pragmatismopolitico.com.br/2013/07/medicos-dos-eua-avaliam-sistema-de-saude-cubano.html#


Importação de médicos: fatos que a imprensa omitiu

A má informação atrapalhou o debate sobre a importação de médicos estrangeiros. Conheça fatos vitais que não foram transmitidos aos brasileiros

Há um problema dramático de má comunicação na questão de importação de médicos.
Não vamos nem falar no lastimável comportamento dos médicos e suas associações, agarrados a um corporativismo ululante, egoísta e desinformado.
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Estudantes americanos formados em Cuba (Reprodução: Diário do Centro do Mundo)
Uma boa frase estava circulando ontem no Twitter: “Esses caras não saem da Paulista nem para fazer protestos.”
Vamos nos centrar, especificamente, na maneira como a decisão de trazer médicos de fora foi apresentada pelo governo aos brasileiros.
Subitamente, pouco tempo atrás, a sociedade soube que havia vontade de trazer 6 000 médicos cubanos para atuar nos lugares remotos que não atraem os médicos brasileiros.
Na boataria que nasceu, houve gente que acreditou no rumor de que poderia ser o embrião de uma revolução comunista promovida por guerrilheiros cubanos disfarçados de médicos.
Faltou ao governo esclarecer, de início, duas coisas:
1) A medicina cubana é reconhecida mundialmente pela excelência, ao contrário da brasileira, ineficiente e mercantilizada. A medicina cubana tem um caráter preventivo, e é altamente eficiente: a expectativa de vida em Cuba é comparável à dos países mais desenvolvidos do mundo.“Basta ver as estatísticas de Cuba para avaliar sua medicina”, disse um médico inglês que mais de uma vez esteve na ilha para estudar o modelo cubano.
Num momento em que reformulava seu mitológico sistema de saúde, o NHS, a Inglaterra mandou uma equipe a Cuba para ver o poderia aprender com o jeito cubano de cuidar da saúde.
Hoje, a saúde pública britânica é, como a de Cuba, focada na prevenção.
2) Outros países altamente desenvolvidos importam médicos quando eles são necessários para a saúde pública.
Isso quer dizer o seguinte: o Brasil estava apenas copiando uma boa prática.
Cerca de 40% dos quase 235 mil médicos registrados no Reino Unido são estrangeiros. A Índia é o principal fornecedor para os ingleses, com 25 mil profissionais.
Os Estados Unidos também são grandes importadores. A cota de profissionais estrangeiros entre os americanos ultrapassa de 25%.
Também a Noruega vai atrás de médicos no exterior. “O programa de importação de médicos da Noruega é considerado um exemplo”, notou o site alemão DW numa recente reportagem sobre o tema.
Cuba, neste quadro, é um tradicional exportador de médicos. Há ou já houve médicos cubanos em 108 países.
A medicina cubana tem relevância internacional também na área de remédios.
Nos anos 90, Cuba se tornou o primeiro país a desenvolver e comercializar a vacina contra a meningite B.
Depois, Cuba criou vacinas contra a hepatite B, fornecidas para 30 países, entre eles China, Índia e Rússia.
O debate no Brasil sobre a importação de médicos estrangeiros – cubanos e de outros países – acabou prejudicado pela falta de informações vitais do governo, pela cobertura míope da mídia e pela reação histérica dos médicos brasileiros.
Resta torcer que a saúde pública brasileira não termine como a grande derrotada na polêmica.

Carta de um médico cubano: respeito, solidariedade e ética

Carta de um médico cubano: Simplesmente respeito, solidariedade e ética

“Meu nome é Juan Carlos Raxach, cubano, que desde 1998 escolhi o Brasil como meu país de residência, e sinto o maior orgulho de ter me formado, em 1986, como médico em Havana, Cuba.
É com tristeza e dor que vejo as notícias publicadas pela mídia e nas redes sociais, a falta de respeito e de solidariedade proveniente de alguns colegas brasileiros, profissionais ou não da área da saúde, que atacam e desvalorizam os médicos formados em Cuba como uma forma de justificar a sua indignação às medidas tomadas pelo governo brasileiro no intuito de melhorar a qualidade dos serviços do SUS.
A qualidade humana e a alta qualificação dos profissionais de saúde cubanos têm permitido que ainda hoje, quando o país continua a enfrentar graves problemas econômicos que se alastram desde os anos 90, após a queda do campo socialista da Europa do leste, os índices de saúde da população cubana seguem colocados como exemplo para o mundo.
São índices de saúde alcançados através do trabalho interdisciplinar e intersetorial desses profissionais.
Por exemplo, em 2012 a mortalidade infantil em Cuba continuava sendo 4,6 por cada mil nascidos vivos, menor que o índice de Canadá e dos Estados Unidos.A expectativa de vida é de 78 anos para os homens e 80 para as mulheres.
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Vinda de médicos estrangeiros e, sobretudo, cubanos, têm gerado discussões acaloradas
E já em 2011 existia um médico a cada 143 habitantes.
Em 2012, a dra. Margareth Chan, diretora-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), reconheceu e elogiou o modelo sanitário de Cuba e destacou a qualidade do trabalho que realizam os profissionais de saúde e os cientistas cubanos, e felicitou às autoridades cubanas por colocar o ser humano no centro da sua atenção.
Não é desprestigiando nossos colegas de profissão, seja qual for o seu país onde tenha se formado, que vamos colocar em pauta e debater as verdadeiras causas da deterioração da qualidade dos serviços de saúde no Brasil.
Na hora de nos manifestar, o respeito, a solidariedade e a ética são necessários para estabelecer o diálogo e ir ao encontro da solução dos problemas.
Solidariamente,
Juan Carlos Raxach
Juan Carlos Raxach é assessor de projetos da Associação Brasileria Interdisciplicar de AIDS – ABIA