5 de dezembro de 2012

Fernando Pessoa


“A vida tem a cor que você pinta.” Mário Bonatti


4 de dezembro de 2012

Presos que lerem Dostoiévski terão pena reduzida em comarca de SC

Uma notícia muito boa que vi no Literatortura, um site que eu gosto bastante:

http://literatortura.com/2012/11/27/presos-que-lerem-dostoievski-terao-pena-reduzida-em-comarca-de-sc/

Written by literatortura on . Posted in Notícias:
Por Gustavo Magnani,
Esta notícia me lembra uma outra que já postei aqui há certo tempo, vejam só:
"Um projeto da Vara Criminal de Joaçaba, no Oeste de Santa Catarina, prevê a redução de até quatro dias na pena de detentos que lerem obras clássicas, de autores como Fiódor Dostoiévski. A proposta, chamada ‘Reeducação do Imaginário’, é coordenada pelo juiz Márcio Umberto Bragaglia e iniciou na manhã desta sexta-feira (23).
De acordo com o Tribunal de Justiça (TJ) do estado, a proposta consiste na distribuição dos livros aos apenados da comarca. Posteriormente, magistrado e assessores vão realizar entrevistas. “Os participantes que demonstrarem compreensão do conteúdo, respeitada a capacidade intelectual de cada apenado, poderão ser beneficiados com a remição de quatro dias de suas respectivas penas”, explica o TJ.
“O projeto visa a reeducação do imaginário dos apenados pela leitura de obras que apresentam experiências humanas sobre a responsabilidade pessoal, a percepção da imortalidade da alma, a superação das situações difíceis pela busca de um sentido na vida, os valores morais e religiosos tradicionais e a redenção pelo arrependimento sincero e pela melhora progressiva da personalidade, o que a educação pela leitura dos clássicos fomenta”, explicou o juiz Bragaglia.

O primeiro módulo prevê a leitura de ‘Crime e Castigo’, de Fiódor Dostoiévski. No segundo módulo, os apenados devem ler ‘O Coração das Trevas’, de Joseph Conrad. Depois, estão previstas obras de autores como William Shakespeare, Charles Dickens, Walter Scott, Camilo Castelo Branco, entre outros. Os livros serão adquiridos em edições de bolso, com verbas de transação penal destinadas ao Conselho da Comunidade.
Na manhã de sexta (24), os participantes do projeto, todos apenados voluntários do Presídio Regional de Joaçaba, receberam uma edição de ‘Crime e Castigo’, acompanhada de um dicionário de bolso. As avaliações estão previstas para ocorrer após 30 dias. Ainda conforme o TJ, o projeto tem o apoio do Ministério Público de Santa Catarina. [retirado G1]"
A notícia que citei no início é esta: livros diminuem o tempo de pena dos presidiarios, aonde, mais detalhadamente explicito minha opinião. Quanto a essa proposta, continuo achando-a altamente válida. Ao meu ver, um passo na humanização do tratamento aos detentos. Não quero e nem vou entrar nos méritos do sistema carcerário brasileiro, naquilo que tem que melhorar etc etc etc. Mas, repito: se acreditamos que nossa modalidade artística preferida, ou uma das preferidas, a literatura, possui esse poder modificador, de criar reflexão, de amadurecer o ser humano, não vejo como me opor ao projeto.
Pelo contrário, espero, imensamente, que seja realizado com seriedade, planejamento e eficiência. E que, obviamente, não seja abandonado no meio do caminho. Ler, para essas pessoas, não será apenas menos dias na cadeia, será mais dias de vida.

12 de novembro de 2012


"Sabe o que eu quero de verdade?! Jamais perder a sensibilidade, mesmo que às vezes ela arranhe um pouco a alma. Porque sem ela não poderia sentir a mim mesma..."
Clarice Lispector

20 de outubro de 2012

Escrevo isso e choro. Porque quero tanto e não quero tanto. Porque se acabar morro. Porque se não acabar morro. Porque sempre levo um susto quando te vejo e me pergunto como é que fiquei todos esses anos sem te ver. Porque você me entedia e dai eu desvio o rosto um segundo e já não aguento de saudade. E descubro que não é tédio mas sim cansaço porque amar é uma maratona no sol e sem água. E ainda assim, é a única sombra e água fresca que existe. Mas e se no primeiro passo eu me quebrar inteira? E se eu forçar e acabar pra sempre sem conseguir andar de novo? Eu tenho medo que você seja um caminhão de luz que me esmague e me cegue na frente de todo mundo. Eu tenho medo de ser um saquinho frágil de bolinhas de gude e de você me abrir. E minhas bolhinhas correrem cada uma para um canto do mundo. E entrarem pelas valetas do universo. E eu nunca mais conseguir me juntar do jeito que sou agora. Eu tenho medo de você abrir o espartilho superficial que aperto todos os dias para me manter ereta, firme e irônica. Minha angústia particular que me faz parecer segura. Eu tenho medo de você melhorar minha vida de um jeito que eu nunca mais possa me ajeitar, confortável, em minhas reclamações. Eu tenho medo da minha cabeça rolar, dos meus braços se desprenderem, do meu estômago sair pelos olhos. Eu tenho medo de deixar de ser filha, de deixar de ser amiga, de deixar de ser menina, de deixar de ser estranha, de deixar de ser sozinha, de deixar de ser triste, de deixar de ser cínica. Eu tenho muito medo de deixar de ser.

27 de setembro de 2012

Diário de Classe


Gráfico feito pela Isabela, do Diário de Classe, sobre educação no mundo.

https://www.facebook.com/DiariodeClasseSC?ref=stream

Vejam o blog da Isabela! Que coragem tem essa menina!

18 de setembro de 2012

Gotye - Somebody That Used To Know feat. Kimbra


MUITO CRIATIVO!
Divisão do trabalho doméstico se aprende na infância, em casa, com o exemplo dos pais! Ficamos muito contentes quando vemos uma iniciativa assim, principalmente na Turma da Mônica que participa da educação e formação de valores de tantas crianças! Parabéns e obrigada, Maurício de Souza!
 

12 de setembro de 2012

"Marcellha do bebum"

"Allons, enfants de La Courtille,
Le jour de boire est arrivé,
C'est pour nous que le boudin grille
C'est pour nous qu'on l'a préparé. (bis)
Ne sent-on pas dans la cuisine
Rôtiret dindons es gigots;
Ma foi, nous serions bien nigauds,
Si nous leur faisions triste mine.
A table, citoyens, videz tous les flacons; Buvez, buvez, qu'un vin bien pur abreuve bos poumons.'

"Avate, filhos de La Courtille,
O dia de beber chegou,
É por nós que a morcilha grelha
É para nós que foi preparada.
Sentimos da cozinha
Assar perus e pernis;
De fato seríamos bem tolos,
Se lhes fizéssemos cara feia.
À mesa, cidadãos, esvaziem todas as garrafas;
Bebei, bebei, que um vinho bem puro mata a sede dos vossos pulmões."

"Marcellha do bebum", "canto de guerra do exército do Vinho", publicado em La Feuille du matin em 25 de novembro de 1792.

Livro: Vinho, de Jean-François Gautier

8 de agosto de 2012

Minimalista

A fase agora é ser minimalista.
Unhas negras e foscas, roupas leves e claras.
Sofrer não tem mais espaço e do passado só o nome.
Quer sair, saímos.
Quer transar, transamos.
Sem mais, sem menos.
Não tem glamour que suporte o exagero.
É cafona, banal.
Muito drama, muito choro.
Pouco rosa, muito menos.
Poupo meu tempo, pouso meu reino:
Dentro de mim, o universo atento.

Jordana Braz
Do blog: http://antigastucia.blogspot.com/#ixzz22xcjvsBS
 

10 de julho de 2012

Você vai quebrar a cara. E amar de novo.

Muito bom texto do Daniel Oliveira (Daniel Bovolento). 
Conheci seus textos pelo Blog Casal Sem Vergonha (casalsemvergonha.com.br). Mas o Daniel tem um blog próprio (http://entretodasascoisas.com.br) no qual li esse texto:

Você vai quebrar a cara. E amar de novo.


Eu nunca mais vou me envolver com alguém de novo. Cansei de quebrar a cara. Essa frase marca o início de um ciclo e o começo desse clichê que a gente repete na tentativa de se proteger na próxima vez. É mais ou menos como um mantra que já prepara o coração para o que vem: segura a surpresa, manda aquela alegria inicial de ter encontrado alguém bacana embora, dá uns tapas na expectativa e te faz prometer para si mesmo que dessa vez vai ser diferente: dessa vez você não vai se envolver.
Essa frieza é característica de quem já sofreu por amor ou por menos que isso. Mas frieza é uma palavra forte, então digamos que seja uma proteção. Essa proteção é a armadura impenetrável de quem foi convocado para a guerra, mas sofre de apatia. É o brigadeiro de panela quente para quem já queimou a língua. Essa proteção é a hesitação de quem não quer repetir um novo ciclo de descasos e esperanças. Ela funciona de forma radical e direta, porque descarta qualquer um antes mesmo dele chegar a algum lugar.
A formação de defesa de pessoas que optaram por “esconder os sentimentos” e viver na desconfiança é pesada. Os que não se declaram solitários por acidente, acabam pode depositar essa postura em outros. Isso porque sempre calha de aparecer alguém que finalmente “valha a pena” para você e essa pessoa vai ser o alvo de todas as suas inseguranças e negações passadas. A frustração de já ter se arrependido, faz com que você manipule as suas vontades e apare as atitudes. Vez ou outra, isso tudo te faz mais amargo, onde o sabor agridoce vai embora e você não percebe que está exagerando. Na sua cabeça, tudo funciona como um teste para o coitado (ou coitada) que tentar algo com você. É que eles estão vivendo a sua síndrome do “Dessa vez vai ser diferente. Eu não vou me envolver.”
Mas existe uma premissa certa nisso tudo: você vai quebrar a cara de novo. Independente da postura que se assuma, você vai passar por alguma frustração. Seja a frustração de estar sozinho, quando não é isso que se quer ou a frustração de finalmente se abrir de novo e se decepcionar. Parece um tanto quanto pessimista, mas é que você encara o “quebrar a cara” como algo negativo. Só que é uma experiência que faz parte de uma vivência maior. Quebrar a cara ensina, e muito, sobre nós mesmos. Ensina sobre padrões de comportamento que nós podemos cometer e erros que dizemos ser dos outros, mas na verdade nos pertencem. Ensina a aprender mais sobre as nossas expectativas e a forma com que lidamos com elas, além de mostrar que pessoas constituem a nossa vida de forma plena e quais podem ser descartadas quando há decepção. Aliás, isso ensina mesmo se foi decepção ou insistência, quando o problema da vez era com a gente. E ensina mais ainda que o ser humano, por mais burro e teimoso que possa ser, ainda possui a capacidade de amar de novo.
Você vai se encantar de novo e se perguntar se dessa vez vai ser diferente, por mais frio ou receoso que seja. Você vai engolir em seco e fingir que nada mudou, mas vai pensar em baixar a guarda. Essa esperança bonita que motiva e que também nos torna um pouco mais bobos e um pouco mais cegos é o que faz com que relacionamentos não sejam apenas relacionamentos. São situações que engrandecem e servem de auto-análise. E elas dizem muito sobre a gente e o nosso modo de ver o mundo. Revela vontades que a gente nem imaginava ter e devolve uma maturidade que vai sendo lapidada ao longo do jogo, com seus ganhos e perdas. E esfrega na nossa cara que a gente vai quebrar a cara de novo e que vai amar de novo. Por mais “evitáveis” que tenhamos nos tornado, ainda somos apaixonantes e apaixonáveis. E essas defesas que a gente cria, com um pouco de persistência e afeto, acabam caindo por terra. E isso pode ser bom ou pode ser ruim. Mas a gente só vai descobrir se der a cara à tapa. Mesmo que isso signifique quebrá-la depois e se apaixonar logo em seguida.


6 de julho de 2012

"Nossa dor vem da distância entre aquilo que somos e o que idealizamos ser. " Nietzsche 


30 de junho de 2012


"Cresci no meio de livros, fazendo amigos invisíveis em páginas que se desfaziam em pó, cujo cheiro ainda conservo nas mãos"

(Carlos Ruiz Zafon)



20 de junho de 2012


"Biblioteca Beinecke de Manuscritos e Livros Raros da Universidade de Yale, New Haven nos Estados Unidos. Nessa biblioteca que se encontra o Manuscrito Voynich, conhecido como o "manuscrito mais misterioso do mundo".

11 de junho de 2012

Porque Não Vale a Pena Sofrer Por Alguém Que Te Faz Sofrer


Estima-se que o planeta Terra hoje possui aproximadamente sete bilhões de habitantes. Tristemente, alguns desses morrerão enquanto estiver lendo este texto, mas com imenso prazer e tesão, informo que em alguma cama bem próxima a você existem pessoas totalmente nuas, trabalhando duro e suando para que bebês com cara de joelho nasçam em prováveis nove meses.Haja fralda!
Gosto de pensar nessas tantas pessoas, me faz bem. Não conheço nada mais interessante do que gente. Quando posso, passo a madrugada inteira olhando as luzes acesas dos muitos lares que me rodeiam, pensando no quanto é gostoso saber que em algumas dessas casas moram camisolas bem fininhas e maliciosamente esvoaçantes.
Fico feliz de verdade quando dou conta de que por trás das inúmeras janelinhas de cada cidade, existem muitos seres humanos, um diferente do outro, todos únicos, não apenas pelas impressões digitais ou pela arcada dentária, mas pelo som individual de cada gargalhada e lógico, pelo formato diferente de cada bunda. Não nego que fico mais alegre ainda quando tento estimar a quantidade de nádegas femininas presentes no território terrestre. Gosto de perder certas contas.
Gosto de sair na rua, imaginar-me escondido em baixo de cada saia e bem lá no fundo, tenho certeza de que isso nunca será um pecado. Como eu gosto dos mamilos, afinal, eles não são lindos? Melhor ainda é pensar que toda mulher carrega duas dessas jóias circulares e que cada uma delas tem o ilustre potencial de ficar eriçada com a bênção de São Pedro, quando esse manda um ventinho frio, aliás, quantos mamilos será que o mundo abriga, hein? Haja sutiã! Como eu amo perder certas contas.
Gosto de ir à praia, passar o dia todo enterrado só com a cabeça fora da areia, apreciando os biquínis das tantas deusas que admiravelmente os vestem sem medo das celulites e das imperfeições normais que a bunda carrega. Já disse hoje que amo as bundas? Enfim, gosto também dos pescoços e gosto mais ainda quando acho neles o botão mágico capaz de arrepiar cada pelinho do corpo feminino.




Gosto desse desfile natural e de ter a certeza absoluta que envelhecerei sem ao menos saber pra onde olhar primeiro, tenho vontade de ficar girando sem parar até ficar tonto de tanta minissaia e salto alto. E as pernas então? Acho que sou perdidamente apaixonado por elas, seria capaz de passar alguns meses só fotografando coxas e anos só vendo as fotos delas, sorrindo com cara de safado, ou espera que eu as veja e faça careta?
Gosto de saber que não estou só por aqui e que quando terminar este texto sairei pelas calçadas de São Paulo, só pelo prazer de a cada esquina, admirar inúmeros exemplares do sexo feminino, cada qual com um telefone diferente, que com muita sorte anotarei na minha mão.
Só não entendo uma coisa: como é que tem tanta gente chorando e mendigando a presença de uma só pessoa, enquanto o mundo está repleto de tantas outras? Superlotado de bundas, mamilos, saias, pernas e porque não nobres corações? Você realmente acha que essa pessoa, que não lhe quer mais, é a melhor do mundo? A mais interessante? A única? Vou repetir: estima-se que o planeta Terra hoje possui aproximadamente sete bilhões de habitantes.
Então, dá próxima vez em que sofrer ou brigar por alguém que não vale a pena ou que não está nem aí para você, faça as contas. Verá que existem muitas outras possibilidades deliciosas por aí e provavelmente não verá mais motivos para desperdiçar lágrimas e continuar economizando tantos sorrisos.



7 de junho de 2012

Biblioteca Rijksmuseum Reading Room

Biblioteca Rijksmuseum Reading Room - Amsterdã, Holanda. A maior biblioteca pública da Holanda, inaugurada em 1800.

6 de junho de 2012


Queria dizer que eu conheci homens fiéis. Já conheci românticos, sonhadores, homens que se doaram muito mais na relação. Vi homem chorar por mulheres que nunca mereceram, vi a mulherada vacilando feio, iludindo, brincando com quem não merecia. Já vacilei também, nunca fiz as coisas por mal, mas já fiz mal, ainda que sem querer. O ser humano é egoísta, independente de sexo. Pessoas usando pessoas, relações sem nenhum laço. Eu já vi homens que ignoravam as investidas de meninas lindas, por amor. Eu vi, ninguém me contou. Canso de ouvir que sou uma feminista barata, mas eu passo longe disso. Sou justa. Admiro mulheres e homens, desde que saibam se portar como mulheres e homens. Odeio hipocrisia, covardia, submissão. Odeio quem ouve um idiota falar alguma besteira na padaria, acha legal e sai repetindo isso com toda a certeza de que é uma verdade absoluta. Não defendo um sexo, defendo o amor, valores. Me dói demais ver mulheres incríveis aturando um cara grosso e idiota, que não dá a mínima pra ela, só porque ela precisar estar junto a alguém. Queria que, de alguma forma, todas entendessem que felicidade não é ser dois, é ser. Queria que todas se vissem como eu as vejo, que todas entendessem o quão são especiais e agissem de acordo com isso, pensassem que alguém estar com elas não é um favor, é sorte. Também me dói ver homens sensacionais desacreditando com facilidade da ideia de ser feliz com alguém, só porque tentou com um alguém muito errado e teve o efeito contrário. Escrevo porque, apesar dos dias difíceis, quase impossíveis, eu acho que ninguém merece viver de portas fechadas, se afundando em si mesmo e em mágoas passadas. Mulheres culpando e criticando os homens, os homens culpando e criticando as mulheres, todo mundo se fechando pra não sofrer e o amor ficando sem espaço pra entrar. Porque se fechar é uma opção, mas você se fecha pra dor e pra felicidade também, isso é uma consequência.


5 de junho de 2012

Intimidade é muito mais do que ficar pelado

Mais um texto do Casal Se Vergonha


Não é o cinema acompanhado, as noites de sábado com programa garantido, o sexo quando der vontade. Não é ter alguém pra chamar de seu, não são as mensagens de bom dia, muito menos alguém pra quem comprar presente no Dia dos Namorados. Suspeito que o que as pessoas tanto busquem quando dizem que estão procurando um amor é a tão querida intimidade. Aquela coisa de querer dividir vontades, revelar segredos, contar coisas que você não contaria pra qualquer um. Intimidade é abrir a porta para o seu íntimo e deixar que o outro mergulhe nessas águas profundas e, muitas vezes, turvas.

O fato é que não é possível escolher os íntimos – eles simplesmente são.

Tem gente que força intimidade com os outros, como aquela pessoa que twitta o café da manhã diariamente, avisa quando vai tomar banho e – por que não? – posta uma foto de toalha pra a web ver. A intimidade forçada tenta ser aquela mesma, tão natural, que deixa a gente à vontade pra sair do banho de toalha na frente da prima. Mas ela jamais será. Acontece o mesmo com pessoas que se entitulam amigos íntimos de todo mundo mas que, na hora em que bate aquele desespero na madrugada, não têm ninguém para quem ligar. Afinal, só os íntimos ligam na madrugada para desabafar as dores do mundo em meio ao sono alheio.


Há também uma confusão quando o assunto é sexo – muita gente diz que sexo sem amor não é bom quando, na verdade, estavam se referindo à intimidade. Aquela mesmo que surge sem escolher a vítima. E então, reformulamos: sexo sem intimidade não é bom. Fica aquela coisa robótica, regada por uma ansiedade em agradar, por um esforço em encaixar o que não se encaixa. Mesmo com os corpos colados, existe um muro entre os dois que impede a entrega. No desespero de não saber o que fazer diante do artificial, os dois encenam uma cena patética, como o ator de teatro que sobre no palco pela primeira vez e, independente dos seus esforços, não convence ninguém de que está à vontade. Era pra todo mundo se emocionar com a história mas ela foi, na verdade, apenas e somente, uma dramatização.

Intimidade, inclusive, não depende de tempo. Você pode ser casado há 10 anos e não ser íntimo do outro. Agora, quando a intimidade existe, ela não deixa dúvidas. Impossível mascará-la.  Ela chega assim, sem pedir permissão e te faz abrir a vida para aquele estranho que conheceu há menos de duas horas – ele então, passa a saber de coisas que nem aquele colega de anos imagina. Ela faz os lábios se fundirem em um só e faz com que eles dancem em movimentos sincronizados, como o time que treinou há meses. Ela guia as mãos como se possuíssem GPS para a felicidade, solta as palavras como se não existissem tabus, libera o sorriso sincero que dispensa ensaios, torna a companhia mais importante que o programa e vangloria a conversa independente do conteúdo.

Na vida, precisamos mesmo de semelhantes, de cúmplices, de íntimos. Aqueles que te permitem jogar as máscaras, que gostam de você mesmo quando se é autêntica no limite. Aqueles que te fazem entender o real significado se ser escutada, que te explicam na prática que um olhar vale mais que mil palavras e que te lembram qual o verdadeiro sentido da palavra aconchego. Intimidade, inclusive, nos faz repensar no nosso vocabulário – quando se encontra alguém que lhe é íntimo, palavras como penetração, por exemplo, assumem outro significado – porque a sexual, pode-se fazer com quem quiser. Agora, penetrar no seu ser, é exclusividade de poucos.

Sorte daqueles que encontram os seus íntimos nas tantas ruas da vida.


29 de maio de 2012


22 de maio de 2012


Das ressacas, tive a pior, a ressaca moral. Sem remedinho, repouso ou simpatia pra passar. O telefone de um lado, o orgulho do outro. Um filme da noite passada, sem final feliz. Eu sem você. O mundo me apontando o dedo, como se já não bastasse o meu. Acabou o café, acabou o sono, acabaram as desculpas pra não sair e encarar o mundo. Só que, por sorte, acabou também minha paciência de ouvir lição de moral de quem não tem moral faz tempo. Fiz porque eu quis e faço de novo, quando me der vontade. Foi assim que eu saí pela primeira vez depois do ocorrido, dando a cara a tapa, com meu melhor batom, uma roupa escolhida a dedo e um foda-se na ponta da língua. Não economizei grosseria, tô cansada de poupar pessoas que não se esforçam o mínimo pra me poupar de nada. Anota aí grossa na sua lista de julgamentos, joga na minha cara outro dia, numa próxima oportunidade. Quem não erra? Faça-me o favor, pra que tanta rispidez por eu ser humana? Podia comprar uns pães e usar o saco na minha cabeça, pra me esconder de toda essa falação, mas eu não ia conseguir me esconder de mim, então deixei pra lá. Só continuei ereta e me vesti de deboche. Porque não vale a pena, ninguém tava falando pra me ver feliz, era só pelo prazer de julgar, só queriam o gostinho de me ver na pior e isso eu não podia dar. Voltei pra casa e o telefone continuava me encarando, mas nada de tocar. Tá querendo que eu ligue? Pode desistir. Se ninguém mais se arrependeu nessa história, não seria eu quem iria inaugurar. Não sou de deixar pra lá, porque esse “lá” é sempre algum lugar dentro de mim e as coisas me assombram por anos. E sou impulsiva demais pra fazer o papel de vítima, nunca encarno o personagem e acabo me desculpando por coisas que eu nem fiz, só pelo hábito de ser vilã. Peguei o celular, depois de muita luta, deixei mensagem: “Não sou de cobrar, acho que as coisas tem que acontecer num fluxo natural. O que te cobrei, porque me doía a ponto d’eu atropelar minhas regras, te deixei faltar. Deixei, talvez, porque você me faltou demais e pra preencher teus espaços precisei de mais que textos, músicas e saudade. Se alguém chegou, foi porque você deu espaço. Eu não soube distribuir as vírgulas, porque sou assim, saio atropelando tudo, sem pausa, errei. Ainda tenho moral porque não fiz nada por aventura, fiz por desamor. E quando se trata disso, pra todo erro há uma absolvição. Não sei você, mas eu me perdoei. E me basta, porque de alguma forma absurda e irônica, fui a maior lesada dessa história toda. Mas me perdoei.” E deitei de consciência tranquila. A mensagem tinha sido meu remédio. Não contei pra ninguém essa história, muitos opinam e repassam boatos por aí, mas poucos sabem com detalhes o que realmente aconteceu. Sou muitas e todas elas são exigentes e críticas, então já enlouqueço sem ajuda, não preciso de outros donos da verdade. Não contei porque não interessa. Só vacilei, fiquei mal, encarei minhas consequências, deixei meu desabafo com quem merecia talvez uma breve explicação e dei sequência na vida. Toda ressaca passa, depois a gente procura por outra e por outra. Que também vão passar. Vomitei meu último foda-se e fui dormir, em paz.




8 de maio de 2012


É difícil acreditar em promessas, quando você tá acostumada a ouvir palavras vazias e esquecidas em pouco tempo. É difícil você pensar que dessa vez pode ser diferente, quando você lembra das outras vezes que você pensou assim e foram tão iguais. Mais cruel do que você chorar e ficar mal por alguém, é você ficar tão bem com uma pessoa que morre de medo de quando esse sorriso vai começar a doer. É como se um dispositivo mandasse alertas dizendo que não se pode ser feliz e ponto, que tudo muito bom pode ficar ruim na mesma intensidade. E sair da sua zona de conforto parece perigoso demais, só que não tem jeito, mais cedo ou mais tarde você é invadida. E começa tudo de novo, gostar e sua linha tênue entre paraíso e inferno. Dá medo, né? Dá mesmo, eu sei. Mas eu não recuo porque quando eu caí, me levantei sozinha. E nenhum medo me assusta mais, porque eu me banco, seguro o tranco do que for, sem me apoiar ou depender de ninguém. Porque por mais maravilhosa que uma companhia for e independente do bem que ela me faça, quando ela partir, ainda vou ter a mim e isso me basta. Sem choro pelos cantos, sem falta de apetite ou cabelo mal arrumado. Acho que o segredo não é saber se entregar. É saber se entregar sem se perder.

"Tu merece alguém que abra os olhos diariamente e pense: “cara, eu tô com ela, eu sou o namorado dela!”. Que goste da tua boca, do teu ombro, do teu cabelo bagunçado, do teu calcanhar, da tua cintura, das tuas mãos, do cheiro da tua pele, das sardas do teu rosto. E isso vai acontecer naturalmente ao você se dar conta de que tu é bonita, no âmago e na lata. Um dia serás o amor da vida de alguém, do jeitinho que tu é. Acorde hoje e repita: eu sou bonita."


Gabito Nunes
 

25 de abril de 2012


17 de abril de 2012

Conselhos de uma Delegada

A mulher que elaborou este conteúdo é diretora de uma Empresa de Segurança no Rio de Janeiro e foi aconselhada por uma delegada após registrar um Boletim de Ocorrência.

1. Sequestro Relâmpago: Se um dia você for jogada dentro do porta-malas de um carro, 
ENGULA O PÂNICO E RESPIRE FUNDO, CALMA E FRIEZA:

a) Chute os faróis traseiros até que eles saiam para fora, estique seu braço pelos buracos.

b) GESTICULE feito doida. O motorista não verá você, mas todo mundo verá. Isto já salvou muitas vidas. 


2. Os três motivos pelos quais as mulheres são alvos fáceis para atos de violência são:
a) Falta de atenção:Você TEM que estar consciente de onde você está e do que está acontecendo em volta de você. 

b) Linguagem do corpo: Mantenha sua cabeça erguida, e permaneça em posição ereta, jamais tenha uma postura "frágil". 
c) Lugar errado, hora errada: NÃO ande sozinha em ruas estreitas, nem dirija em bairros mal-afamados à noite.


3) NUNCA FAÇA ISSO:
a) NÃO FAÇA ISSO: As mulheres têm a tendência de entrar em seus carros depois de fazerem compras, refeições, e sentarem-se no carro (fazendo anotações em seus talões de cheques, ou escrevendo em alguma lista, ou ainda conferindo o ticket de compra). 

b) O bandido SEMPRE estará observando você: Essa é a oportunidade perfeita para ele entrar pelo lado do passageiro, colocar uma arma na sua cabeça, e dizer a você onde ir. 
c) No momento em que você entrar em seu carro:trave as portas e vá embora, não fique ajeitando o cabelo, ou passando batom...

4) Algumas dicas acerca de entrar em seu carro num estacionamento ou numa garagem de estacionamento:
a) Esteja consciente: olhe ao redor, olhe dentro de seu carro, olhe no chão dianteiro e traseiro de seu carro, olhe no chão do lado do passageiro, e no banco de trás. 

b)Se ao lado da porta do motorista do seu carro, estiver estacionada uma Van Grande: entre em seu carro pela porta do passageiro. 

IMPORTANTE: A maioria dos assassinos que matam em seqüência atacam suas vítimas empurrando-as ou puxando-as para dentro de suas Vans, na hora em que as mulheres estão tentando entrar em seus carros.


5) NUNCA deixe para procurar as chaves do seu carro, quando estiver parada em frente a porta dele.
a) Dirija-se ao veículo com a chave em punho, pronta para abrir a porta e dar a partida. Observe os carros ao lado do seu. 


b) Se uma pessoa do sexo masculino estiver sentado sozinho no assento do carona do carro dele que FICA mais próximo do seu carro, você fará bem 
em voltar para o shopping, ou para o local de trabalho, e pedir a um segurança ou policial para acompanhar você até seu carro.


6) É SEMPRE MELHOR ESTAR A SALVO DO QUE ESTAR ARREPENDIDO, não tenha vergonha de pedir ajuda.

Use SEMPRE o elevador ao invés das escadas. (Escadarias são lugares horríveis para se estar só, são lugares perfeitos para um crime).

7) PARE COM ISSO: 
As mulheres, estão sempre procurando ser prestativas. Não use o celular a toa.

a) Essa característica poderá resultar em que você seja assassinada.
Um assassino sequencial, homem de boa aparência, com boa formação acadêmica, declarou em seu depoimento que SEMPRE explorava a simpatia e o espírito condescendente das mulheres. Ele andava com uma bengala ou mancava, e conseqüentemente pedia 'ajuda', para entrar ou sair de seu carro, e era nesse momento que ele raptava sua próxima vítima. 

b) Durante o dia, ande de óculos escuros: O agressor nunca saberá para onde você esta olhando. 
c) Celular: só em lugar seguro. 

11 de abril de 2012

Foco

No espelho dos teus olhos
foco

No arrepio da tua pele
foco

No calor do teu corpo
foco

No meio das tuas pernas
foco

No som do teu prazer
foco

No sabor do teu suor
foco 

De tudo o que não somos nós
desfoco.



Andréa Beheregaray

Da série
 Vermelho

4 de abril de 2012

Páscoa por Veríssimo

- Papai, o que é Páscoa?
- Ora, Páscoa é... bem... é uma festa religiosa!
- Igual ao Natal?
- É parecido. Só que no Natal comemora-se o nascimento de Jesus, e na Páscoa, se não me engano, comemora-se a sua ressurreição.
- Ressurreição?
- É, ressurreição. Marta vem cá!
- Sim?
- Explica pra esse garoto o que é ressurreição pra eu poder ler o meu jornal.
- Bom, meu filho, ressurreição é tornar a viver após ter morrido.
Foi o que aconteceu com Jesus, três dias depois de ter sido crucificado. Ele ressuscitou e subiu aos céus. Entendeu?
- Mais ou menos... Mamãe, Jesus era um coelho?
- O que é isso menino? Não me fale uma bobagem dessas! Coelho! Jesus Cristo é o Papai do Céu! Nem parece que esse menino foi batizado! Jorge, esse menino não pode crescer desse jeito, sem ir numa missa pelo menos aos domingos. Até parece que não lhe demos uma educação cristã!
Já pensou se ele solta uma besteira dessas na escola?
Deus me perdoe! 
Amanhã mesmo vou matricular esse moleque no catecismo!
- Mamãe, mas o Papai do Céu não é Deus?
- É filho, Jesus e Deus são a mesma coisa. Você vai estudar isso
no catecismo. É a Trindade. Deus é Pai, Filho e Espírito Santo.
- O Espírito Santo também é Deus?
- É sim.
- E Minas Gerais?
- Sacrilégio!!!
- É por isso que a ilha de Trindade fica perto do Espírito Santo?
- Não é o Estado do Espírito Santo que compõe a Trindade, meu filho, é o Espírito Santo de Deus.
É um negócio meio complicado, nem a mamãe entende direito.
Mas se você perguntar no catecismo a professora explica tudinho!
- Bom, se Jesus não é um coelho, quem é o coelho da Páscoa?
- Eu sei lá! É uma tradição. É igual a Papai Noel, só que ao invés de presente ele traz ovinhos.
- Coelho bota ovo?
- Chega! Deixa eu ir fazer o almoço que eu ganho mais!
- Papai, não era melhor que fosse galinha da Páscoa?
- Era... era Melhor, sim... ou então urubu.
- Papai, Jesus nasceu no dia 25 de dezembro, né?
- Que dia ele morreu?
- Isso eu sei: na Sexta-feira Santa.
- Que dia e que mês?
- (???) Sabe que eu nunca pensei nisso?
Eu só aprendi que ele morreu na Sexta-feira Santa e ressuscitou três dias depois, no Sábado de Aleluia.
- Um dia depois!
- Não três dias depois.
- Então morreu na Quarta-feira.
- Não, morreu na Sexta-feira Santa...ou terá sido na Quarta-feira de Cinzas?
Ah, garoto, vê se não me confunde! Morreu na Sexta mesmo e ressuscitou no sábado, três dias depois! Como? Pergunte à sua professora de catecismo!
- Papai, porque amarraram um monte de bonecos de pano lá na rua?
- É que hoje é Sábado de Aleluia, e o pessoal vai fazer a malhação do Judas.
Judas foi o apóstolo que traiu Jesus.
- O Judas traiu Jesus no Sábado.
- Claro que não! Se Jesus morreu na Sexta!!!
- Então por que eles não malham o Judas no dia certo?
- Ui...
- Papai, qual era o sobrenome de Jesus?
- Cristo. Jesus Cristo.
- Só?
- Que eu saiba sim, por quê?
- Não sei não, mas tenho um palpite de que o nome dele era Jesus Cristo Coelho.
Só assim esse negócio de coelho da Páscoa faz sentido, não acha?
- Ai coitada!
- Coitada de quem?
- Da sua professora de catecismo!

Luis Fernando Veríssimo

26 de março de 2012

14 de março de 2012


Eu chorando vendo filme de romance sou minha esperança de amor sincero e final feliz. Eu rolando na cama até de manhã sou meu medo de perder as pessoas, de me machucar outra vez. Eu mexendo no cabelo sem parar sou minha insegurança enorme de não ser bonita, inteligente e ter um corpo legal. Eu arrumada e maquiada sou minha mulher auto-suficiente adormecida, que espera essas oportunidades pra se libertar. Eu jogada no sofá sou eu livre, sem neuroses, sem peso, sem forçar barra. Eu no bar com os amigos sou uma pausa nas loucuras, meu momento de distração. Eu hoje sou sua, amanhã quem vai saber ? Gosto mesmo é de ser minha, me emprestar quando for seguro, com garantia de devolução sem danos. No fundo queria é que me roubassem, sem manual, sem dor. Sou muitas, sou muito. Sou intensa, mas não peso. É só você saber como levar. Sou verdade, sou de verdade, sou na verdade mais simples do que complicada. Meio paradoxo, mas sou mulher, ser simples e ponto não é da minha natureza. A questão é que sou, mas sou pra poucos também.

Marcella Fernanda

11 de março de 2012

Martha Medeiros

Já fui julgada 

até crucificada.

Já fui enaltecida

e muito amada.

Já fui certa e errada.

Já julguei e condenei.

Me arrependi e me desculpei.

Já fiz de tudo um pouco

porque meu verbo é solto.

Se sinto, preciso falar,
se me incomoda
tenho que questionar.
Mal interpretada costumo ser
mas o que posso fazer
quando preciso dizer
o que vai dentro do meu coração
e bole com a minha emoção.
Já fui injusta com quem não deveria ser
e cruel com quem fez por merecer.
Já fui bondosa e companheira.
Já fui até a enfermeira
de vidas que desabavam.
Já fui bombas que estouravam
em meio a guerras devastadoras.
Já fui a doutora que curou
um coração que se feriu por amor.
Já fui a personagem esquecida
e a atriz principal.
Já fui recatada e imoral.
Já fui alguém que o vento levou
e que trouxe, de volta, por um favor.
Já acertei e errei
adoeci e me curei.
Já pedi e implorei.
Já cedi, vendi e dei.
Já me culpei e me torturei
por tantas coisas que nem sei.
Já corri muito atrás
mas era longe demais
e não consegui chegar.
Já rasguei lembranças
que não prestavam mais.
Já remexi o lixo para achá-las
e de volta, na gaveta, colocá-las.
Já fiz de tudo um pouco
afinal sou normal,
só não posso revelar
o etc e tal.
Dar Vote.


Martha Medeiros

6 de março de 2012


Preciso prestar mais atenção nas cores,
fazer disso um roteiro habitual do dia a dia, 
afinal é o meu estado de espírito 
que as fazem mais ou menos bonitas,
deixam-nas intensamente iluminadas 
ou melancolicamente esmaecidas.
Hoje, por exemplo, só tenho olhos para o laranja,
pura alegria!


Neia Lambert
"Naturalmente eu sou irritável, naturalmente meu humor não é brilhante, mas de um modo geral eu sou alegre.”

Clarice Lispector.

3 de março de 2012

15 de fevereiro de 2012

"A depender de mim
Os psicanalistas estão fritos
Eu mesmo é que resolvo os meus conflitos
Com aspirina amor ou com cachaça
Os gritos todos virarão fumaça
A dor é coisa que dói e que passa
Curar feridas só o tempo há de
Toda regra para o bem da humanidade
É certo necessita de uma exceção

A depender de mim
Os publicitários viram bolhas
Eu sei como fazer minhas escolhas"

Zeca Baleiro

A complicada arte de ver

Rubem Alves


Ela entrou, deitou-se no divã e disse: “Acho que estou ficando louca”. Eu fiquei em silêncio aguardando que ela me revelasse os sinais da sua loucura. “Um dos meus prazeres é cozinhar. Vou para a cozinha, corto as cebolas, os tomates, os pimentões – é uma alegria!
Entretanto, faz uns dias, eu fui para a cozinha para fazer aquilo que já fizera centenas de vezes: cortar cebolas. Ato banal sem surpresas. Mas, cortada a cebola, eu olhei para ela e tive um susto. Percebi que nunca havia visto uma cebola. Aqueles anéis perfeitamente ajustados, a luz se refletindo neles: tive a impressão de estar vendo a rosácea de um vitral de catedral gótica.
De repente, a cebola, de objeto a ser comido, se transformou em obra de arte para ser vista! E o pior é que o mesmo aconteceu quando cortei os tomates, os pimentões… Agora, tudo o que vejo me causa espanto.”
Ela se calou, esperando o meu diagnóstico. Eu me levantei, fui à estante de livros e de lá retirei as “Odes Elementales”, de Pablo Neruda. Procurei a “Ode à Cebola” e lhe disse: “Essa perturbação ocular que a acometeu é comum entre os poetas. Veja o que Neruda disse de uma cebola igual àquela que lhe causou assombro: ‘Rosa de água com escamas de cristal’. Não, você não está louca. Você ganhou olhos de poeta… Os poetas ensinam a ver”.

Ver é muito complicado. Isso é estranho porque os olhos, de todos os órgãos dos sentidos, são os de mais fácil compreensão científica. A sua física é idêntica à física óptica de uma máquina fotográfica: o objeto do lado de fora aparece refletido do lado de dentro. Mas existe algo na visão que não pertence à física.
William Blake sabia disso e afirmou: “A árvore que o sábio vê não é a mesma árvore que o tolo vê”. Sei disso por experiência própria. Quando vejo os ipês floridos, sinto-me como Moisés diante da sarça ardente: ali está uma epifania do sagrado.
Mas uma mulher que vivia perto da minha casa decretou a morte de um ipê que florescia à frente de sua casa porque ele sujava o chão, dava muito trabalho para a sua vassoura. Seus olhos não viam a beleza. Só viam o lixo.
Adélia Prado disse: “Deus de vez em quando me tira a poesia. Olho para uma pedra e vejo uma pedra”.
Drummond viu uma pedra e não viu uma pedra. A pedra que ele viu virou poema.
Há muitas pessoas de visão perfeita que nada vêem.
“Não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. Não basta abrir a janela para ver os campos e os rios”, escreveu Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa. O ato de ver não é coisa natural. Precisa ser aprendido.

Nietzsche sabia disso e afirmou que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. O zen-budismo concorda, e toda a sua espiritualidade é uma busca da experiência chamada “satori”, a abertura do “terceiro olho”. Não sei se Cummings se inspirava no zen-budismo, mas o fato é que escreveu: “Agora os ouvidos dos meus ouvidos acordaram e agora os olhos dos meus olhos se abriram”.
Há um poema no Novo Testamento que relata a caminhada de dois discípulos na companhia de Jesus ressuscitado. Mas eles não o reconheciam. Reconheceram-no subitamente: ao partir do pão, “seus olhos se abriram”.

Vinicius de Moraes adota o mesmo mote em “Operário em Construção”: “De forma que, certo dia, à mesa ao cortar o pão, o operário foi tomado de uma súbita emoção, ao constatar assombrado que tudo naquela mesa – garrafa, prato, facão – era ele quem fazia. Ele, um humilde operário, um operário em construção”.
A diferença se encontra no lugar onde os olhos são guardados. Se os olhos estão na caixa de ferramentas, eles são apenas ferramentas que usamos por sua função prática. Com eles vemos objetos, sinais luminosos, nomes de ruas – e ajustamos a nossa ação. O ver se subordina ao fazer. Isso é necessário. Mas é muito pobre.
Os olhos não gozam… Mas, quando os olhos estão na caixa dos brinquedos, eles se transformam em órgãos de prazer: brincam com o que vêem, olham pelo prazer de olhar, querem fazer amor com o mundo.
Os olhos que moram na caixa de ferramentas são os olhos dos adultos. Os olhos que moram na caixa dos brinquedos, das crianças. Para ter olhos brincalhões, é preciso ter as crianças por nossas mestras.
Alberto Caeiro disse haver aprendido a arte de ver com um menininho, Jesus Cristo fugido do céu, tornado outra vez criança, eternamente: “A mim, ensinou-me tudo. Ensinou-me a olhar para as coisas. Aponta-me todas as coisas que há nas flores. Mostra-me como as pedras são engraçadas quando a gente as têm na mão e olha devagar para elas”.
Por isso – porque eu acho que a primeira função da educação é ensinar a ver – eu gostaria de sugerir que se criasse um novo tipo de professor, um professor que nada teria a ensinar, mas que se dedicaria a apontar os assombros que crescem nos desvãos da banalidade cotidiana. Como o Jesus menino do poema de Caeiro. Sua missão seria partejar “olhos vagabundos”…


Rubem Alves – Educador e escritor.
Texto originalmente publicado no caderno “Sinapse”, jornal “Folha de São Paulo”, em 26/10/2004.